Portugal oferece futebolistas formados, com talento e potencial como nenhum outro país do mundo, e paradoxalmente somos dos campeonatos que menos minutos dá aqueles que formamos, aqueles que sonham e nos fazem sonhar desde meninos(as)….
Metade da Liga não usa a própria formação.
No nosso campeonato 2025/26 da primeira divisão, 8 das 18 equipas não tinham utilizado um único jogador formado no clube, Gil Vicente, Arouca, Tondela, Alverca, Estrela da Amadora, Rio Ave, Santa Clara e Aves SAD (dados da abola.pt)
O CIES (Centro Internacional de Estudos do Desporto) conta como formado no clube um atleta que tenha feito 3 ou mais anos entre os 15 e os 21 anos no clube.
No topo, só um clube supera os três grandes: Vitória de Guimarães, com 20,5% de minutos dados a atletas formados no clube. Depois Sporting (16,5%), FC Porto (15,9%), SC Braga (10,1%) e Casa Pia (4,7%). Dados de abola.pt.
E, medido, estamos no fundo da Europa.
Segundo o CIES, só clubes de 2 países europeus apostam menos na formação do que os da Liga portuguesa.
A escala, essa, é clara: Hungria 19,8%, LaLiga 16,4%, Chéquia 15,4%, Sérvia 14,1%, Ligue 1 12,7%, Bélgica 9,7%.
A Ligue 1, um campeonato que se queixa de perder os jovens para Inglaterra, dá o dobro dos minutos aos que forma do que o nosso. Dados de abola.pt
E o melhor formador do mundo joga aqui.
Segundo o mesmo Observatório, o Benfica é a academia n.º 1 do mundo, 94 jogadores formados a jogar nas principais 49 ligas. Dados de pesquisa Rtp.pt.
A melhor fábrica de jogadores e sonhos do planeta joga num campeonato que está no fundo da tabela a dar oportunidades aqueles que forma/produz.
Formamos muito bem para o pouco que usamos. A questão que se coloca é, o que fecha a porta de entrada da equipa principal.
Onde isto se decide?
- Porquê o número de oportunidades dadas a jovens-atletas da casa é menor do que comparativamente a jovens da mesma idade contratados fora?
- Porquê a tolerância relativamente ao jovem-atleta da casa é menor do que comparativamente ao erro cometido relativamente a um contratado?
- Porque não são verdadeiramente potencializadas as divisões inferiores para elevar o número de oportunidades aos jovens jogadores portugueses?
- Porquê não se reformulam todas as hipotéticas regras, leis, orientações que permitam modificar esta lógica?
- Porque não somos capazes de alavancar toda esta indústria e torná-la uma referência nacional e internacional, com proveito muito além do evidente (desportivamente, socialmente, economicamente, formativamente, etc.)?
- A certificação de academias mede qualidade de formação ou mede instalações?
- Quem educa a bancada para tolerar o erro do jovem-jogador? Como o clube trata essa pressão e a transforma em matéria fértil?
- Se a seleção se enche de talento formado em Portugal e o campeonato não o utiliza, como se analisa e se resolve esta equação?
- Que parte da formação de treinadores em Portugal prepara para desenvolver jovens e não para ganhar o próximo jogo?
- Se na formação, todos os jovens tem/devem jogar o mesmo tempo de jogo, quantos minutos efetivamente acumulam ao longo da sua formação em competição? E desse tempo quantas vezes tocaram na bola?
- Deve que forma se poderá olhar para os campeonatos sem tabela classificativa nas idades mais precoces?
Serão os interesses corporativistas mais importantes que todos os nossos jovens talentos? Mais importantes que toda a ligação, alma e glória que todos desejamos sentir?
Serei eu um apaixonado pelo desporto, mas carregado de ingenuidade? Quero acreditar que vale a pena a análise e o questionamento…
Uma liga que forma para o mundo e se esquece de si própria não tem um problema de talento, tem um problema de coragem, de eficiência, de estratégia e sobretudo de liderança.
Pedro Paralta
