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Elsinha: “Liberdade é autorizar-me a ser plenamente quem sou”

© DR

Entre Paris, Almancil e diferentes geografias da lusofonia, Elsinha construiu uma identidade que não cabe numa só nacionalidade. Em conversa com o BOM DIA, a artista falou sobre o álbum “Liberdade”, a relação com as raízes portuguesas, o conflito entre a segurança profissional e a música, a influência da família e o desejo de que o filho possa escolher o seu próprio caminho.

Para Elsinha, crescer entre duas culturas nunca foi um problema. Foi, desde cedo, uma espécie de privilégio. Nascida e criada em Paris, mas com raízes familiares em Almancil, no Algarve, a artista habituou-se desde criança a atravessar fronteiras culturais: passava as férias em Portugal, frequentava a escola portuguesa aos sábados e crescia entre diferentes paisagens, sonoridades e formas de viver. “Desde criança percebi que era uma riqueza”, conta ao BOM DIA.

Essa dupla pertença também trouxe algumas dificuldades. Na escola francesa, Elsinha percebia que tinha experiências musicais que os colegas não tinham e, durante algum tempo, sentiu até alguma vergonha do fado. O que ouvia em casa parecia-lhe pouco moderno quando comparado com aquilo que encontrava à sua volta. A relação com essas raízes só se transformaria profundamente, por volta de 2020 e 2021, quando voltou a aproximar-se da música portuguesa e passou a olhar para ela como uma “riqueza profunda” e uma parte essencial da sua identidade.

Mas a música que hoje faz não nasceu de uma tentativa de provar que é portuguesa. Pelo contrário. Quando questionada sobre a pressão que muitos lusodescendentes sentem para demonstrar a sua pertença, a artista rejeita essa ideia. “Eu não sou portuguesa a 100%”, explica, acrescentando que nunca pensou em criar música para “parecer um pouco mais portuguesa”. O que existiu foi um “chamamento artístico”.

A própria língua tornou-se, ao longo do percurso, um território onde sentiu preconceito. O sotaque, as palavras diferentes e a distinção entre português europeu e português do Brasil foram, em determinados momentos, motivo de comentários. Hoje, Elsinha defende uma visão mais abrangente da língua portuguesa e considera importante que Portugal valorize o português nas suas diferentes expressões.

Uma comunidade que vai muito além de Portugal

Ao falar da sua experiência enquanto artista, Elsinha prefere também falar em comunidade lusófona, e não apenas em comunidade portuguesa. Paris, onde cresceu, tem para si uma importância particular pela quantidade de eventos culturais, concertos, festivais, conferências e iniciativas que permitem aproximar diferentes comunidades. Lisboa surge como outro ponto fundamental, que descreve como uma espécie de epicentro das várias rotas lusófonas.

Mas foi no Brasil que sentiu, pela primeira vez, um reconhecimento especialmente forte enquanto artista. Aos 24 anos, durante uma estadia no país, acabou por formar uma banda quase por acaso. Começou a tocar em alguns palcos no Rio de Janeiro e encontrou uma resposta que a marcou. “Foi lá que os primeiros reconheceram que eu era artista profundamente”, recorda.

A lusodescendente associa essa receção à forte presença da música no quotidiano brasileiro, uma característica que a marcou durante a sua estadia no país. A experiência no Rio de Janeiro, onde começou a tocar com uma banda formada quase por acaso, foi decisiva para se sentir reconhecida como artista.

Entre a música e a segurança

Se hoje fala de liberdade, é também porque durante muitos anos teve de negociar com uma ideia muito diferente: a de que viver da música não era uma possibilidade segura.

No seio familiar, como acontece em muitas famílias de portugueses emigrantes, a prioridade estava ligada à estabilidade económica. Os pais tinham deixado Portugal à procura de melhores condições de vida e queriam que a filha tivesse uma profissão que lhe garantisse segurança. Elsinha estudou, passou o concurso nacional para professora de espanhol e entrou no ensino público. Durante anos, manteve essa carreira ao mesmo tempo que construía o seu percurso musical. “Demorei dez anos para me demitir”, conta.

A relação dos pais com a sua escolha também foi mudando lentamente. Durante vários anos, demoraram a aceitar que a música não era apenas uma paixão passageira. Um dos momentos decisivos aconteceu quando a mãe foi finalmente assistir a um concerto da filha. Elsinha tinha 27 anos. No final, a mãe chorou, segurou-lhe a mão e disse-lhe que finalmente compreendia a sua escolha.

A reação trouxe-lhe um profundo sentimento de alívio. “Uau, vou poder ser reconhecida por quem sou verdadeiramente”, recorda. Mas surgiu-lhe também outro pensamento: talvez, ao assumir o seu próprio caminho, estivesse a ajudar a mãe a libertar-se de uma frustração antiga. Também ela tinha sonhado ser cantora.

A partir desse momento, a resistência deu lugar ao apoio. Hoje, a mãe acompanha os concertos da filha e participa também na sua direção artística. A relação entre as duas acabaria por ganhar ainda outra dimensão com “Liberdade”.

O conceito de “Liberdade” e a cura intergeracional

O novo álbum parte precisamente dessa necessidade de olhar para trás para poder avançar. Para Elsinha, liberdade não significa apenas poder fazer aquilo que se quer. É, sobretudo, permitir-se ser inteiramente quem se é, sem ficar preso às expectativas da família, da sociedade ou da cultura.

“Liberdade é autorizar-me a ser plenamente quem sou”, afirma.

A imagem que usa para explicar esse processo é a de uma cebola: várias camadas que vão sendo retiradas até chegar ao centro. “Liberdade” nasce desse trabalho de revisitação e de memória, cruzando experiências pessoais com questões relacionadas com a feminilidade, a sensualidade, o machismo e as memórias associadas à família portuguesa.

Quando questionada sobre a possibilidade de o álbum funcionar como uma forma de terapia familiar, Elsinha referiu que se trata de um “trabalho de memória”. É essa expressão que melhor enquadra a forma como descreve o disco.

O conceito de liberdade também ganha uma dimensão histórica. O álbum aborda questões relacionadas com colonialismo e escravatura e começa com “Navio Negreiro”, estabelecendo desde o início uma relação entre a experiência individual e memórias mais amplas.

A mãe no disco: Um regresso à música

A participação da mãe na última faixa é talvez um dos momentos mais íntimos do álbum. A ideia partiu de Elsinha, que lhe propôs gravar uma canção de embalar. A mãe ficou entusiasmada, embora inicialmente não soubesse como seria o processo.

A gravação aconteceu no estúdio da casa de Elsinha, num contexto muito simples. O álbum foi produzido com poucos meios, no quarto da artista e com um orçamento reduzido. O momento acabou por coincidir também com uma fase de mudança familiar, quando a casa estava a ser vendida, tornando aquela gravação ainda mais simbólica.

A gravação proporcionou ainda uma surpresa ao pai de Elsinha, que ouviu a esposa cantar daquela forma pela primeira vez. Inicialmente discreto em relação à participação, acabou também por se mostrar orgulhoso e passou a partilhar com outras pessoas o facto de a mulher integrar o álbum da filha.

A presença da mãe no disco fecha, de certa forma, um ciclo. A mesma mulher que durante anos insistiu na importância de uma carreira estável tornou-se parte de um trabalho que representa a escolha definitiva da filha pela música.

Quando a solidão era um refúgio

Entre as canções de “Liberdade”, Elsinha destaca “Soledad”. A música reúne vários dos temas do álbum e recupera uma experiência particularmente forte da infância: a sensação de ser diferente e de não encontrar nas outras crianças a mesma forma de sentir.

A artista esclarece que essa solidão não estava relacionada com a nacionalidade. Era uma sensação mais profunda, a de ser diferente das outras crianças e de sentir as situações com uma intensidade que nem sempre encontrava nos outros. Foi nessa fase que a música se tornou um refúgio. Elsinha conta que chegava a passar duas ou três horas por dia a ouvir música. O que então era uma solidão difícil transformou-se, com o tempo, numa relação diferente com o silêncio e com o espaço individual.

Hoje, enquanto mãe, diz apreciar a possibilidade de estar sozinha. Já não se trata da solidão de uma criança que procura alguém que a compreenda, mas de um espaço pessoal que escolhe e valoriza.

O que muda quando se é mãe?

A experiência da maternidade também alterou a forma como olha para a história da própria família. Se os pais partiram de Portugal em busca de melhores condições económicas, ela própria encara a luta pela música como uma procura de liberdade. Para o filho, deseja que seja possível juntar essas duas dimensões: seguir uma paixão sem abdicar de uma vida economicamente mais estável.

“Eu gostaria também de um nível de vida um pouco maior do que o que estamos a ter”, admite. Vive atualmente em França, num bairro social, e tenta construir uma vida profissional a partir da música, com um rendimento ainda modesto.

Por isso, se o filho quiser seguir uma carreira artística, não pretende repetir a pressão que sentiu. Aconselhá-lo-ia a estudar e a conhecer outras possibilidades, mas estaria disponível para ouvir aquilo que ele realmente quer. Se aos 18 anos lhe disser que quer frequentar uma escola de música, promete pensar nessa possibilidade.

A experiência também lhe ensinou que uma carreira musical não se resume a estar em palco. Existem diferentes profissões e caminhos dentro da indústria e da criação artística.

Da França ao Brasil, passando por Portugal

A relação de Elsinha com os diferentes países onde viveu também faz parte dessa construção. Durante a pandemia, esteve em Portugal. Na altura, ainda trabalhava como professora e a mudança não aconteceu com o objetivo principal de desenvolver uma carreira artística. O contexto dificultou o contacto com outros músicos e o acesso a concertos, mas acabou por lhe dar tempo para aprofundar o trabalho individual.

Foi nesse período que desenvolveu mais a guitarra e a composição. “Pachamama” nasceu na Costa da Caparica e acabaria por encontrar o seu espaço nas plataformas de streaming. O videoclipe da música foi também gravado naquele local.

Entre Paris, Portugal e o Brasil, Elsinha foi construindo uma identidade feita de várias geografias, sonoridades e memórias. A sua música não procura escolher entre lugares, mas encontrar espaço para todos eles.

É também essa procura que atravessa “Liberdade”: não apagar o passado, mas compreender as suas marcas e libertar-se das expectativas que condicionam o presente. Entre as raízes portuguesas, a vida em França e as experiências que foi acumulando pelo caminho, Elsinha reivindica o direito de construir a sua própria identidade, sem ter de escolher entre as diferentes partes de si mesma. Para ela, a liberdade começa precisamente aí: na possibilidade de pertencer a vários lugares sem deixar de pertencer a si própria.

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