Artistas portugueses cruzam eletrónica, experimentação e herança africana em Veneza
Os artistas portugueses Lara Dâmaso, Nídia, DJ Firmeza e Helviofox vão participar na 70.ª edição do Festival Internacional de Música Contemporânea de Veneza, que começa este sábado, levando ao festival uma componente social e comunitária.
Sob o título “A Child of Sound”, a programação de 2026 é dirigida por Caterina Barbieri e reúne mais de 130 artistas em 40 eventos, incluindo 23 obras inéditas, 18 delas em estreia mundial, atravessando séculos e continentes, misturando tradição, música clássica, experimental e eletrónica.
A participação portuguesa vai levar ao festival a fusão entre eletrónica e influências da diáspora africana, expressando a cultura das comunidades descendentes das antigas colónias portuguesas em África, fazendo ligação entre os sons de Lisboa e o estilo africano, explicou Caterina Barbieri aquando do anúncio da programação.
Nídia, DJ Firmeza e Helviofox apresentam-se com projetos desenvolvidos em colaboração com a editora Príncipe, fundada em Lisboa em 2011, dedicada à “promoção da música de dança contemporânea nas periferias e bairros populares da cidade, trazendo um profundo compromisso social e comunitário ao trabalho dos seus artistas locais”.
Além disso, a artista Lara Dâmaso participa no Biennale College 2026, programa de residências de criação que envolve músicos, compositores e artistas sonoros com menos de 30 anos, realizando performances ao vivo, composições acousmáticas e instalações audiovisuais.
A jovem compositora, artista sonora e intérprete portuguesa foi uma dos cinco jovens selecionados por Caterina Barbieri – os restantes são provenientes do Canadá, Estados Unidos, Brasil e Itália -, que irão desenvolver os seus projetos durante três residências em Veneza, em abril, junho e setembro.
Dâmaso fará a estreia absoluta de “Through Wood, Through Flesh, Dancing on a String, Attached to Nothing”, para piano de cauda, harpa, contrabaixo e voz.
O conceito central do festival inspira-se na ideia de que a música é a “infância do espírito”, uma experiência que reconecta a um estado primordial de abertura, vitalidade e criatividade, retomando o pensamento de Karlheinz Stockhausen sobre a importância de uma escuta não condicionada, livre de convenções culturais ou estilísticas, explicou a diretora.
Entre as estreias mundiais do festival destacam-se “Musica per una fine”, de Ennio Morricone, apresentada pelo Parco della Musica Contemporanea Ensemble, com 32 instrumentistas e coro de 16 vozes, uma obra inédita publicada postumamente, e construída em torno de um poema de Pier Paolo Pasolini lido pelo próprio autor, com um programa de música de Johann Sebastian Bach, que inclui o “Ricercar a 6”, na orquestração de Anton Webern, e uma encomenda à compositora e intérprete Sarah Davachi, que receberá o Leão de Prata do Festival.
Outra estreia mundial é “In the Threshold of Your Love”, uma obra transcultural que estabelece diálogo entre a cantora americana Lyra Pramuk e o percussionista iraniano Mohammad Reza Mortazevi, com participação do multi-instrumentista egípcio El-Ghazouly, tocando instrumentos como o sinter marroquino e a fujara eslovaca, combinados com electrónica.
O festival também apresenta o repertório renascentista e barroco dos Tallis Scholars, incluindo uma obra inédita de Kara-Lis Coverdale, que interpreta ainda o seu álbum “Changes in Air” e atua como organista convidada junto de Sarah Davachi.
O programa integra estreias italianas, como “Canons” para um coro à cappella, de Clarissa Connelly, explorando a voz na relação entre memória histórica e contemporânea.
“Outro mestre, pioneiro da cena japonesa de ‘noise’ e figura de culto da improvisação radical, é Keiji Haino, laureado com o Leão de Ouro para a carreira”, que para a bienal “realizará um concerto ‘site-specific’ para voz e instrumentos de corda, e apresentará também um documentário sobre a sua carreira, dirigido por Kazuhiro Shirao, nunca antes exibido fora do Japão”, destacou a diretora.