No Brasil, depois de se saber o que é a bolsonarice, aquilo que Jair Bolsonaro fez durante o seu mandato, e que nem merece aqui ser escalpelizado, temos agora o filho, Flávio, em vias de se tornar Presidente do Brasil. E já fala em mudar a Constituição. O Brasil, depois de ter experimentado o pai, prepara-se para experimentar o filho. É como se, depois de uma primeira experiência que deu no que deu, alguém tivesse achado por bem repetir a experiência.
Mudar a Constituição e tal… não nos é estranho por cá, em Portugal, imaginar o que poderá acontecer se chegarmos à extrema-direita. Se Trump nos Estados Unidos e o Flávio Bolsonaro no Brasil voltarem a dar força a esta corrente, não é difícil imaginar que essa força também chegue cá e dê mais força ao Chega. Já conhecemos a motosserra de Milei e sabemos como as ideias, quando encontram lenha favorável, deixam de ser extravagâncias de campanha e entram na governação. E a vaga não é só americana ou brasileira. Em França, Marine Le Pen continua posicionada para disputar a Presidência. Se começamos a juntar esta salada-russa, já não estamos apenas a falar de cada país por si. Estamos a falar de uma vaga que atravessa o mundo ocidental e que, concentrada, transforma a política internacional num lugar cada vez mais imprevisível, mais conflituoso e mais caótico.
Nos Estados Unidos, vemos o que se passa. Eu disse “vemos”, mas há muito quem não veja. Haviam tido Trump num primeiro mandato e voltaram a escolhê-lo. Agora vemos o que vemos: a recuperação da ideia do fuzilamento, declarações sobre a guerra, ameaças, provocações e uma linguagem que, noutras circunstâncias, nos pareceria saída de uma caricatura.
O Brasil também já tinha visto. Viu Jair Bolsonaro, viu o que aconteceu depois da derrota eleitoral, viu a tentativa de golpe e Jair que é Messias, mas não faz milagres, está preso. Mesmo assim, há quem não tenha visto, quem não se lembre, quem tenha esquecido ou ache que vale a pena tentar outra vez. E lá está Flávio, filho de Jair, a caminho de se tornar Presidente do Brasil.
Eu… bem, eu fico a pensar no que isto tudo representa para nós, em Portugal, e para o mundo. Uma coisa é cada país fazer as suas escolhas. Outra é assistir a um contágio internacional, em que aquilo que acontece num país dá força ao que acontece noutro. O trumpismo dá força a uns, o bolsonarismo reiterado dá força a outros e a extrema-direita vai deixando de ser excepção para passar a fazer parte da paisagem política.
E alguém imagina a junção de tudo isto? Trump, Bolsonaro, Milei, Marine Le Pen e o senhor Putin. Aqui a salada-russa transforma-se numa ordem mundial cada vez mais perigosa e difícil de perceber.
Já parámos para imaginar para onde podemos levar o mundo? Ou será que continuamos a achar que cada eleição é apenas uma eleição, cada ameaça é apenas uma frase, cada excesso é apenas um excesso e cada retrocesso democrático é apenas um pormenor? Um dia descobrimos que não eram pormenores. O que parecia impossível foi-se tornando possível, o que parecia absurdo foi-se tornando normal e, quando dermos por ela, já está tudo dentro da mesma salada-russa. Percebem?
Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).
