Quando disseram ao jovem Sam – António is portuguese – ele veio ter comigo para me dizer, com um brilho nos olhos de contentamento e orgulho – I love Cristiano Ronaldo. It’s my idol. Definitely the best football player in the world.
Este tipo de reações idênticas às do jovem Sam testemunhei-as eu muitas vezes, por todos os lugares por onde passei. Byfleet nos arredores de Londres, Leigthon Buzzard, Gatwick, País-de-Gales, Irlanda-do-Norte, Amesterdão, e muitos outros lugares, mais precisamente no norte de Inglaterra. E isso, critiquem-me se quiserem, mas como emigrante que sou, sempre me encheu de orgulho.
Lembro-me de um grupo de Filipinos, colegas de trabalho, me falarem de Cristiano Ronaldo como se ele fosse um deles. Percebia-se na maneira como falavam de Cristiano, o mesmo orgulho que eu sentia, e sinto, por ele ser português. Mesmo o Jô que se assume como a pessoa que não aprecia futebol, que não sabe o nome das equipas, dos jogadores ou dos campeonatos, mas sabe que Cristiano é português e que é o melhor do mundo.
Alguém publicou nas redes sociais que Portugal já era Portugal antes do Cristiano Ronaldo, e que continuará a ser Portugal depois do Cristiano Ronaldo.
Quem pode contestar tão sábias palavras? Não se pode dizer que a pessoa que fez estas afirmações esteja enganada. Mas, de todas as pessoas que dos seus lábios, da sua boca e das suas cordas vocais mencionaram a palavra “Portugal” porque pegada a ela estava também o nome Cristiano Ronaldo, nenhuma dessas pessoas me disse…” és português? Gosto muito de Portugal, e admiro muito o vosso sentido de aventura ao percorrerem o mundo na era dos descobrimentos. Não disseram…Portugal? Há…sempre ouvi falar desse país. Vocês têm muita gente conhecida em todo o mundo. Como fazem isso? Sabem…conhecida à escala planetária. (o que é injusto pois…e a senhora Dona Amália Rodrigues? E o Eça de Queirós ou o Camilo Castelo Branco? O José Saramago? O Joaquim de Almeida?) Não, isso nunca aconteceu, embora seja justo dizer que muita gente ao nome Portugal associa o sol, a comida, e a generosidade dos portugueses.
É também justo dizer que nem todos apoiam ou apreciam o Cristiano Ronaldo. Tenho alguns colegas de trabalho, poucos apesar de tudo, que afirmam com um certo ar de desafio, que o melhor do mundo é o Messi. Mas para mim, nem sequer é esse debate acerca de quem é o melhor do mundo que aqui importa muito. Para mim, aquilo que posso destacar é que, nesse debate que divide opiniões, na comparação tem estado sempre o nome do Cristiano Ronaldo. No entanto, tenho-me apercebido que a maior parte desses meus colegas que fazem essa afirmação, não são genuínos apoiantes da teoria de Messi ser melhor do que Cristiano Ronaldo. Parece-me sim que lhes é mais aceitável apoiar um descendente, em termos futebolísticos é claro, de Maradona, do que um jogador que vem de um país pequeno e que, até à sua vinda, poucos ouviram falar com tanta frequência, e com projeção tão mundialmente abrangente.
Que pessoas de outros países tenham dificuldade que lhes passe no goto o facto de Cristiano Ronaldo arrecadar tantos títulos, sendo de um país geograficamente tão pequeno quão é Portugal, isso eu até entendo. Na perspetiva de muita gente ele deveria ser talvez um Christian Ronald, do Reino Unido, ou da América do Norte, ou porque não um Cristian Reinhold da Alemanha. Não só entendo como também me faz inchar de orgulho. Mas que ele seja tão diminuído, tão enxovalhado e tão rebaixado por tantos portugueses, isso é que eu tenho mais dificuldade de entender. Fico com a sensação de que para muitos portugueses somos grandes nos nossos feitos, mas pequenos na nossa confiança. Até parece que temos pejo em mostrar ao mundo que nos assusta lidar com a grandeza dos nossos. E digo isto porque me lembro que quando José Saramago recebeu o prémio Nobel da Literatura, não faltou em Portugal quem dissesse que ele não o merecia. Cheguei mesmo a ler que a Academia Sueca só atribuiu o Nobel a Saramago porque nesse ano não tinha a quem mais o oferecer. Como se de repente tantos e tão bons escritores em todo o mundo tivessem um bloqueio de inspiração simultâneo. A afirmação foi tão ridícula quanto a ignorância de conhecimento do propósito do prémio em si. Que não é atribuído pelo que o escritor, ou o poeta, (que para mim é também escritor) faz nesse ano, mas sim no conjunto da sua carreira ao longo dos anos.
Nas redes sociais, aquando da mais recente polémica que envolveu Cristiano Ronaldo, o treinador, e a Seleção Portuguesa de Futebol, os insultos e a vontade faminta de rebaixar um dos nossos maiores atletas de sempre, não se fez esperar, e foi tão agressiva quanto voraz. De repente, nunca se tinha visto tantos experts em matéria de futebol, de psicologia do comportamento, de análise, de escrutínio exímio das falhas de um atleta que, veja-se bem, é afinal um ser-humano.
“É um bebé grande. Tem um ego do tamanho do mundo. Pensa que pode mandar na seleção. Quer jogar todos os jogos. Fica amuado quando é substituído, etc. etc.”
Um atleta que é sempre o primeiro a chegar aos treinos, e o último a sair, que treina consistentemente, que dedicou a sua vida a cem por cento ao futebol, que se expôs a sacrifícios e que os suportou um dia atrás do outro, que mesmo depois de conquistar tantos troféus continua incansavelmente a puxar os seus limites, se calhar a sua perspetiva em relação às criticas, muitas vezes reles e maldosas, que lhe vão fazendo, são vistas de uma maneira bem diferente daqueles que sentados num sofá, ou numa cadeira confortável, já para não falar dos que se escondem por detrás de um teclado, lhe fazem.
Não quero dizer com isto que Cristiano Ronaldo não tenha a sua quota parte de culpa em todo este processo. Ele mesmo o admitiu, pedindo desculpa por isso. Afinal que atire a primeira pedra quem nunca falhou. Mas…quando alguém se sente grande a rebaixar qualquer pessoa, isso é um sinal de fraqueza e falta de carácter.
Tem um enorme ego? Se calhar tem. Alimenta-o com muito e constante trabalho, sacrifício e persistência. Não desiste. É isso um defeito? Comete erros? Comete. Afinal quem não os comete? Mas ainda bem que comete erros. Sendo humano deles não escapa. Depois de tantos momentos mágicos ao longo da sua carreira, ainda haveria alguém com lata suficiente para afirmar que o grande herói é afinal produto da inteligência artificial.
Algumas pessoas estiveram mais de vinte anos à espera de poder descarregar de uma só vez toda a frustração, e aquele sabor amargo-doce de ter um português, de um país tão pequenino, a escrever no mapa de muita gente espalhada por todo o mundo, um país chamado Portugal. Temos mesmo de menorizar esse feito que, apesar dos muitos portugueses que tanto prestigio e orgulho trazem ao nosso modesto Portugal, da dimensão global com que o Cristiano Ronaldo fez talvez tão cedo não se volte a repetir?
Merecemos mais do que estamos dispostos a receber, pelo que vamos conquistando. O Cristiano Ronaldo merece bem mais por tudo aquilo que conquistou no mundo do futebol, e que com esse feito nos beneficiou como país. Se for assim tão difícil para muitas pessoas, portugueses, aceitarem, pelo menos respeitem.
Sim, é verdade que Portugal já era Portugal antes do Cristiano Ronaldo. Que vai continuar a ser Portugal depois do Cristiano Ronaldo. Mas só depois dele é que, depois de sobreviver a uma tragédia no Nepal, se viu uma criança Nepalesa a jogar futebol com a camisola de Cristiano Ronaldo. Ou, no Brasil o menino Thomás que foi viral na internet ao reagir com lágrimas de alegria quando recebeu uma caderneta/figurinha de Cristiano Ronaldo. Os exemplos são mais do que muitos. Não nos podemos esquecer do jovem Sam com quem iniciamos este texto.
Uma das lições que me acompanharam toda a minha vida, desde a escola primária, foi quando a professora nos explicou a diferença entre ser grande, e ser o maior. O Presidente da República mais pequeno do mundo, com menos de um metro e meio de altura, no seu discurso de vitória, chegou ao púlpito, e com toda a confiança, orgulhoso do seu feito, gritou à multidão que o ouvia…” Sou o maior”.
Ser pequeno quando se deveria ser adulto, é ser estúpido e ridículo, por esperar pela queda de quem é o maior.
O caminho da felicidade não segue pela mesma estrada dos que se sentem bem a rebaixar os outros. Dos que encontram alegria na tristeza de muitos, dos que têm alento no desanimo de outrem, dos que se sentem grandes tentando fazer dos outros pequenos. A mesquinhez, o ciúme, a raiva, a estupidez, são tudo pedras que dificultam esse caminho.
Errar é aprender. Aprender é crescer. Crescer é nunca esquecer que já fomos e continuaremos a ser, pequenas crianças.
Obrigado, Cristiano Ronaldo, por não seres perfeito. Cresceste. A culpa não é tua por seres grande.
Mas acima de tudo, Obrigado, por seres o Maior.
António Magalhães
