O calçado português está a ganhar espaço em dois mercados estratégicos, apesar de um contexto internacional marcado pela redução do consumo e pela pressão sobre os custos.
Na Alemanha, as importações de calçado produzido em Portugal aumentaram 2,6% no primeiro semestre de 2026, enquanto Itália e Espanha registaram fortes quebras. Nos Estados Unidos, as exportações portuguesas cresceram 12,5% entre janeiro e julho, colocando o mercado norte-americano pela primeira vez entre os cinco principais destinos do setor.
Os dados divulgados pela associação alemã HDS/L mostram que a evolução do calçado português contrasta com a tendência geral das importações alemãs. Entre janeiro e junho, a Alemanha importou 366 milhões de pares, menos 6,8% do que no mesmo período de 2025, com o valor das importações a cair 9,8%, para 6,1 mil milhões de euros.
Entre os fornecedores europeus, Portugal foi uma das exceções. As importações alemãs de calçado português cresceram 2,6%, para 7,7 milhões de pares. Em sentido contrário, as importações provenientes de Itália recuaram 17,5% e as de Espanha diminuíram 14,4%.
A Alemanha continua a ser um dos mercados mais importantes para a indústria portuguesa, num momento em que o setor enfrenta uma conjuntura particularmente exigente. No mercado alemão, as vendas dos fabricantes de calçado caíram 2,4% no primeiro semestre, para 1,14 mil milhões de euros, enquanto o emprego nas empresas com pelo menos 50 trabalhadores diminuiu 3%.
A situação levou a associação alemã a alertar para o impacto do consumo moderado, dos custos elevados, das tensões geopolíticas e dos conflitos comerciais. As empresas enfrentam ainda novas exigências regulatórias, nomeadamente no âmbito da responsabilidade alargada do produtor para os setores têxtil e do calçado.
Do outro lado do Atlântico, a evolução é particularmente positiva para Portugal. Entre janeiro e julho, as exportações portuguesas de calçado para os Estados Unidos cresceram 12,5%, atingindo 1,5 milhões de pares e um valor de 57 milhões de euros.
Com este crescimento, os Estados Unidos ultrapassaram o Reino Unido e tornaram-se o quinto maior mercado do calçado português, atrás de Alemanha e França, que continuam a liderar a lista.
O mercado norte-americano destaca-se também pelo valor do produto português vendido. O preço médio do calçado exportado para os Estados Unidos atingiu 38,47 euros por par, bastante acima dos 24,72 euros registados considerando o conjunto das exportações portuguesas.
Para a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), os Estados Unidos constituem uma prioridade estratégica. O país consumiu 1.950 milhões de pares de calçado em 2025, equivalentes a 8,7% do consumo mundial, e depende quase integralmente de fornecedores externos.
O potencial de crescimento é, por isso, considerável. Em 2025, Portugal exportou 84 milhões de euros de calçado para os Estados Unidos, um valor ainda muito distante dos cerca de 1.500 milhões de euros exportados pela Itália para o mesmo mercado.
A APICCAPS prepara já uma nova ofensiva comercial para reforçar a presença portuguesa nos Estados Unidos. Nos dias 1 e 2 de dezembro, a associação promove em Nova Iorque o Portuguese Shoes Showcase, integrado na FFANY Market Week.
A iniciativa prevê encontros previamente organizados entre empresas portuguesas e compradores, distribuidores e retalhistas norte-americanos, bem como acompanhamento após o evento. A estratégia passa por reforçar a presença portuguesa nos segmentos de maior valor, com uma aposta na qualidade, no design e na produção europeia.
Entre as empresas já confirmadas encontram-se Ambitious, Centenário, Luís Onofre e Nobrand.
Para o presidente da APICCAPS, Luís Onofre, o setor português reúne condições para continuar a crescer no mercado norte-americano, graças à combinação de qualidade, design, capacidade industrial e produção responsável. O desafio, segundo o responsável, passa agora por aproximar as empresas portuguesas dos compradores certos e transformar esse potencial em negócio.
Os resultados registados na Alemanha e nos Estados Unidos surgem num momento em que a indústria portuguesa procura consolidar a sua posição internacional, diversificar mercados e reforçar a aposta em segmentos de maior valor acrescentado.