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Ajudar os filhos a gerir ansiedade e a socializar em tempos de covid-19

A pandemia alterou, de forma significativa, o funcionamento social, não só devido às questões sanitárias e de saúde pública, mas também devido ao impacto sobre a adaptação às tecnologias e redes sociais virtuais. A nossa natureza é talhada para viver em sociedade e o instinto de sobrevivência da espécie, à semelhança de quase todos os seres vivos, leva-nos a funcionar em conjunto, com verdades comuns, assim como a transmitir emoções comunitárias para que consigamos ler o lugar do outro. Esta realidade desenvolveu a empatia, tão característico da natureza humana.

Socializar é uma característica civilizacional fundamental, para que através da prosperidade comum, se proteja dos desvios do padrão, ajudando-o a normalizar para o melhor funcionamento em comunidade.

No âmbito da capacidade de nos colocarmos no lugar do outro para evoluirmos mutuamente numa estrutura social, uma história me vem à memória, da antropóloga Margaret Mead. Numa aula, um dos seus alunos perguntou-lhe qual seria, na sua perspetiva, o primeiro sinal de civilização numa cultura. A expectativa de quase todos, seria que que a antropóloga dissesse que seriam os anzóis, as panelas de barro ou pedras de amolar. No entanto, Mead disse que o primeiro sinal de civilização numa cultura antiga seria o terem encontrado um Ser Humano com um fémur partido e cicatrizado. Essa resposta surpreendeu o aluno o que, naturalmente, pediu mais explicações. Foi então que Margaret Mead explicou que no reino animal, se um bicho partir a perna, provavelmente morre, pois já não pode correr do perigo, ir até ao rio beber água ou caçar para conseguir alimento. Ao mesmo tempo, e ferido, o animal torna-se uma presa fácil, de carne fresca para os predadores, pelo que, geralmente, nenhum animal sobrevive com uma perna partida o tempo suficiente para o osso sarar antes de ser consumido pela cadeia alimentar própria da natureza selvagem. Quando se encontra um fémur cicatrizado, significa que alguém dedicou tempo para cuidar daquele que caiu e precisou de ajuda, protegeu-o, dando-lhe segurança até que ela recuperasse. Nesse sentido, ajudar alguém durante na dificuldade ou na vulnerabilidade é onde a civilização começa. Civilização é, assim, ajuda comunitária, pois a força de um grupo começa exclusivamente nos valores e na responsabilidade individual para garantir a sobrevivência comum.

Desta forma, compete aos adultos e à estrutura social ajudar as crianças, jovens e os mais vulneráveis a adaptar-se às circunstâncias que a pandemia está a causar na sociedade.

O primeiro fator fundamental que importa compreender é que, aceitar as alterações de rotinas da forma forçada a que estamos sujeitos, com os imperativos legais associados, vai causar sempre stress e certamente sofrimento, aumentando o risco de sofrer de perturbações de ansiedade e depressão. Se não vigiados, esses sintomas e sinais clínicos poderão ter um impacto significativo não só agora, como também a longo prazo, na saúde física e mental dos futuros adultos.

A ciência determina que a exposição prolongada ao stress aumenta a pressão arterial, enfraquece o sistema imunitário e contribui para doenças como a obesidade e problemas cardíacos, ansiedade e depressão. Aliás, a ansiedade e depressão são patologias que estão em crescendo de forma significativa nos jovens de hoje. Um estudo de 2018 da National Survey of Mental Health nos Estados Unidos da América, mostrou um agravamento das taxas de ansiedade e depressão entre os 6 e os 17 anos, de 5.4% de sintomatologia em 2003 para 8.4% em 2011 (altura em que as redes sociais passaram a estar facilmente disponíveis nos telemóveis, com tudo ao alcance de um toque no ecrã). Neste momento, a pandemia COVID19 certamente potenciou e agravou esta realidade e os números das investigações em curso serão preocupantes, pelo que importa agir rapidamente para reduzir as vulnerabilidade e saber o que fazer com o que está a acontecer.

Reconhecer os sintomas de Stress nas crianças e jovens é fundamental. Partilho os mais prováveis e evidentes:

1) Irritabilidade e raiva, com pouca tolerância à frustração

2) Mudanças de comportamentos abruptas (ex. a criança antes gostava de conversar e de repente, desinteressou-se. Antes queria estar em família, e agora isola-se e afasta-se, etc.)

3) Problemas de sono (queixar-se que está cansado e não conseguir dormir; alterar horários de sono; não conseguir adormecer, etc.)

4) Responsabilidades negligenciadas (esquecer-se de trabalhos de casa, ignorar trabalhos pendentes, procrastinação dos deveres, autocuidado ou tarefas domésticas, etc.)

5) Mudanças alimentares (comer mais ou menos do que o habitual)

6) Ficar doente com mais frequência (O stress apresenta sintomas físicos associados – dores de cabeça ou de estômago, pedidos de idas ao médico, etc.)

Com isto, o que recomendo para “miúdos e graúdos” é o que adiante passo a indicar:

1) Procurar dormir bem, com rotinas e horas próximas para deitar e acordar (sendo a hora de acordar o melhor marcador cronobiológico para estabilizar a higiene de sono)

2) Exercício físico, pois a atividade física é um fator protetor em qualquer idade. Poder fazê-lo em família, em casa, ou com os amigos virtualmente num horário comum e com orientação de alguém com competência para o efeito (é uma excelente oportunidade de redução do stress). Dos 6 aos 17 anos, a recomendação clínica é de 60 minutos de atividade física por dia (de acordo com o United States Department of Health and Human Services).

3) Conversar. A conversa sobre as situações stressantes ajuda a relativizar, colocar os problemas em perspetiva e descobrir caminhos ou soluções.

4) Interagir com amigos com jogos criativos entre vizinhos, na distância socialmente adequada em tempos de COVID ou digitalmente. Jogos de tabuleiro de entretenimento em família que dê para divertir.

5) Ter tempo para hobbies ou para ficar em silêncio. Tal como os adultos, as crianças e jovens devem ter também o seu tempo livre, para fazerem o que querem fazer, estar na sua solitude (que é bem diferente de solidão). Encontrar o balanço entre atividades favoritas e tempo livre é uma descoberta necessária para o equilíbrio pessoal de cada um.

6) Sair ao ar livre. Na varanda ou caminhada ao ar livre, preferencialmente com tempo em contexto de natureza ou espaços verdes, ajuda a reduzir o stress. A investigação tem demonstrado que, quem vive em áreas com mais espaços verdes ou rodeado de natureza, têm menos sintomas de ansiedade, depressão e stress.

7) Escrever. O conseguir colocar em palavras as preocupações, assim como exprimir sentimentos de forma consciente, explorando a gratidão pelas experiências vividas ou orgulho das superações alcançadas, reduz sintomas de ansiedade e depressão.

8) Aprender a viver o momento (mindfulness). A capacidade de apreciar o momento, de saborear o momento que vale por si só é cada vez mais difícil. Treinar essa competência desde criança é uma mais-valia para os futuros adultos.

Se os sintomas tenderem a persistir, mesmo quando as crianças ou jovens já tentaram estas abordagens, o melhor mesmo será sempre procurar um psicólogo. Este pode ajudar.

Ivandro Soares Monteiro

Prof Doutor
Psicólogo Clínico | Psicoterapeuta | Executive Coach | Fundador & Director da EME SAÚDE

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.