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O que se passa em Lesbos?

Desde o início da crise humanitária dos refugiados, muito por força da guerra civil em que a Síria se encontra desde 2011, a ilha de Lesbos tornou-se num nome comum nas notícias relacionadas com a migração. A proximidade com a Turquia fez com que esta ilha se tornasse o destino mais facilmente alcançável para quem foge da guerra e procura um novo começo no solo seguro da União Europeia (UE). A realidade mostra que Lesbos tem sido, para muitos, o recomeçar de um pesadelo. Para outros tem sido também o seu fim.

O campo de refugiados de Mória, em Lesbos, tem-se revelado um pequeno inferno na terra. Num local com capacidade máxima para 3100 pessoas vivem cerca de nove mil. Ficam em contentores ou em tendas sobrelotados. O espaço não é muito e o tempo agudiza a dor. Em Mória tudo é lento: por cada 80 pessoas há uma casa de banho; por cada 200 há um duche. As filas são locais de convívio, à espera de uma das três refeições diárias. Não há espaço para as crianças brincarem. Todas as semanas há casos de adolescentes que tentam suicidar-se. Na terra de Hades confirmamos que não há propriamente um acolhimento digno de se chamar europeu. O que se passa em Lesbos?

No mês passado questionei a Comissão Europeia sobre este assunto e sobre que medidas está a Europa a implementar para a protecção destes migrantes, principalmente os mais vulneráveis. A ajuda a estas pessoas tem chegado, felizmente, através do trabalho de várias organizações, como os Médicos Sem Fronteiras, mas não é suficiente. É preciso que a Grécia e a Itália (duas das maiores portas de entrada de migrantes no continente europeu) deixem de carregar a responsabilidade bastante solitária de apoio aos que procuram a Esperança na Europa.

Entre 2015 e 2016, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), chegou a território grego mais de 1 milhão de pessoas. Em 2017, o número ultrapassou as 35 mil e, este ano, até ao passado mês de Julho, era de aproximadamente 26 mil pessoas, quase o dobro relativamente ao período homólogo do ano anterior. A Grécia, e também a Itália, nunca deveriam ter enfrentado esta situação sozinhos.

Depois do fracasso do sistema de quotas para a distribuição de 160 mil refugiados da Grécia e da Itália, com a Hungria, a Polónia e a República Checa a incorrerem em graves incumprimentos do acordo aprovado em Setembro de 2015, os Estados-membros da UE chegaram a um novo acordo, em Junho deste ano, em que a recepção de requerentes de asilo passa a funcionar através de uma base voluntária. Esta medida traduz-se num verdadeiro retrocesso na política de migração. A Europa nunca deverá ser um continente de duas medidas.

Portugal continua na linha da frente e a ser solidário no que diz respeito ao acolhimento de refugiados. Até ao final de 2019, o país assumiu o compromisso de receber cerca de mil refugiados. Uma centena chegará do Egipto dentro das próximas semanas.

Na semana passada, Eduardo Cabrita, Ministro da Administração Interna, anunciou na Grécia que os dois países vão apresentar à Comissão Europeia um projecto de programa bilateral de transferência de refugiados daquele país para Portugal. O programa começará com um projecto-piloto de 100 pessoas, podendo depois ser alargado, ao longo de 2019. Não só em terra, mas também no mar temos sido um exemplo. A nossa GNR destacada na Grécia já resgatou cerca de 2.500 pessoas este ano.

A responsabilidade nesta matéria deveria ser partilhada por todos. Enquanto isso não acontecer, a fome, as violações e as tentativas de suicídio continuarão a acontecer em Lesbos. Há algo de muito errado na ilha que viu nascer Safo. Não deixa de ser irónico que o hino feito às mulheres por esta poetisa grega seja agora quase silenciado pelas sistemáticas violações de quem chega pelo mar Egeu. Mais ainda quando, por toda a Europa, deixamos cair da actualidade mediática o sofrimento destas pessoas. São as modas da sociedade do espectáculo que nos moldam a visão e nos fazem curvar entre o acessório e o fundamental. Porque ninguém pergunta: o que se passa em Lesbos?