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Morrer e ressuscitar, ou o suicídio dos portugueses através de Unamuno

“Os portugueses, procedentes dessas classes cosmopolizadas das cidades, de Lisboa ou do Porto, os que se formaram nos livros em voga da ciência fácil de exportação, os que no fundo se envergonham da sua pátria, são esses que dizem e repetem que aqui não há problemas de religião nem a ninguém interessam os problemas religiosos. E, no entanto, acreditam nos milagres da ciência”

Miguel de Unamuno, Portugal. Povo de suicidas, Lisboa, Letra Livre, 2012, p. 62.

Comprado há uns tempos na Ler Devagar, e colocado em poisio na mesa-de-cabeceira, foi agora a vez de ser lida esta coletânea de conferências de Unamuno. Uns mais cheios de referências a literatura do século XIX; uns mais recheados de episódios políticos do fim da monarquia dos Bragança; outros, ainda, numa mistura de ambos, mas todos eles com uma boa dose de subtileza, com boa dose daquele humor que nos obriga a um riso leve porque é sobre nós próprios que somos levados a rir.

E este texto de Unamuno é isso mesmo: uma excelente forma de cada um de nós se levar ao confronto consigo mesmo através de aspectos de identidade colectiva. E a sua reflexão é, essencialmente feita em cima de conceitos relativos ao colectivo, conteúdos que são trabalhados partindo-se, muitas vezes, dos autores portugueses que começaram a tratar esses mesmos conceitos, como Oliveira Martins.

A chamada Geração de 70 está recheada de figuras iluminadas que, numa dor existencial imensa, se deixam e se transfiguram em imagens de um desgosto de morte, uma queda vocacional para o suicídio.

Falar sobre as formas como a morte está plenamente presente numa cultura é uma tarefa altamente complexa. Talvez o texto que mais me tenha cativado tenha sido “As almas do purgatório em Portugal”, um texto que deambula por muitos aspectos, mas centrado nas alminhas dos caminhos, naquelas pequenas capelinhas ou altares que pululam pelos campos. É brilhante a reflexão, por parte de alguém que se afirma não crente no purgatório, sobre o sentido de vida que o purgatório dá a quem viu morrer um seu ente-querido.

Seja nas tradicionais “alminhas”, que preenchem tantas encruzilhadas nos caminhos rurais, seja nos altares com as almas em fogos eternos perante a redenção perdida, seja, ainda, num rol imenso de orações, com especial peso para tudo o que circula em torno de Fátima e do rosário, há um imaginário colectivo em torno do purgatório, do sofrimento, não na morte, mas sim após a morte. A morte é a primeira morte, à qual sucede a purga, e ainda o julgamento final, o momento de uma possível morte definitiva para a salvação.

De facto, o sofrimento torna-se norma e até desejo. Tanta é a poesia nascida nesta estrita faixa de terra atlântica, que me é impossível fazer um elenco. Mas parece que sempre aqui se clama pelo talhar das tábuas do “nosso” caixão! E num sentido que poderia ser pessoano, se a morte é o centro das iniciações, a metáfora, a imagem dos renascimentos, então Portugal está sempre em busca de uma ressurreição.