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Quando cai a noite em Timor

Dia após dia vão-se recalcando penosamente as últimas lembranças. E depois de tão longe desfiar dos tempos, o passado não é mais que uma névoa envolta num misto de saudade vaga, indefinida, distante, e deleite duma estranha solidão numa paisagem que faz pensar e sofrer.

Paisagem cheia de encontro e beleza, terror e amargura. Paisagem de gargantas criçadas de bicos, abismos de bocas abertas, florestas negras de sombra, desfiladeiros, alturas, terras ressequidas de entranhas ao léu, sol escaldante, sombras esfarrapadas em arabescos, tufos de verdura, mistério e fantasmas, manadas de búfalos, loucas cavalgadas em Los Palos, coqueirais perdidos no dorso das serras, planícies escondidas, ribeiras esfraldadas, fragas abruptas no monte ramelau, dominando tudo, onde a vista se alarga por quilómetros em redor e se perde ao longo do azul cinzento do céu. Recortes canhestros na encosta alcantilada, onde o mar se espraia na areia branca preguiçosamente; matizes de púrpura, verde sombra, atirados a esmo pintalgando a serra; fontes borbulhantes escorrendo água cristalina, onde perto se anima como lagarto esteirado ao sol, uma cabana.

E quando a noite cai as sombras dão à paisagem uma soturnidade dorida de mistérios e fantasmas. Mas, ao redor da cabana se acendem fogueiras em noites de luar e eu danço em tronco nu no meio das sombras, e os batuques ressoam ao longe estilhaçando-se de fraga em fraga, é noite de festa! E os homens de troncos nus, vestidos de vermelho das fogueiras dançam em roda. Mas nem o rufar dos tambores, nem os gritos, nem as vozes, nem a música dolente me consegue arrancar esta saudade da minha terra Santa Cruz da Trapa. Há algo de diferente em tudo isto. Algo de patético e extasiante. A solidão esmaga. Não há o carinho de minha namorada de minha mãe que seja luar nesta noite de festa. Há a saudade que dança dentro de mim como os homens de dorsos nus em redor da fogueira. E, aqui, nesta paisagem fica TIMOR!…

(Escrito algures em Timor em 1970)

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