Nasci em 1978, numa época em que a tecnologia digital ainda estava longe de ocupar o quotidiano. Vi os computadores deixarem de ser equipamentos distantes e especializados para entrarem nas nossas casas; vi nascer a Internet de utilização generalizada, os chats, os telemóveis, os smartphones e as redes sociais. Hoje, aos 48 anos, assisto a uma mudança diferente: a máquina já não se limita a calcular, executar ou transmitir. Começa também a interpretar, aprender, dialogar e agir em ambientes concebidos para seres humanos.
Como engenheiro electrotécnico e de computadores, na área de Controlo e Robótica, sempre me fascinou a automação. Há algo de extraordinário numa fábrica em que sensores, actuadores, robots, sistemas de controlo e redes industriais coordenam processos com uma precisão e uma continuidade dificilmente alcançáveis por meios exclusivamente humanos. Durante a formação, uma pergunta surgia com frequência: se uma tarefa é repetitiva, previsível ou formalizável, por que razão não poderá ser automatizada?
Durante muito tempo, a fronteira parecia relativamente clara. A máquina executava aquilo que o engenheiro conseguia antecipar, programar e controlar. Perante ambientes pouco estruturados, linguagem ambígua, acontecimentos inesperados ou decisões dependentes de contexto, a vantagem humana era evidente. A inteligência artificial está a tornar essa fronteira muito menos nítida.
Dos robots industriais aos humanoides
Os robots industriais tradicionais são extraordinariamente eficientes, mas normalmente trabalham em ambientes adaptados às suas características: células protegidas, trajectórias definidas, peças posicionadas e processos cuidadosamente desenhados. O humanoide propõe quase o problema inverso. Em vez de adaptarmos todo o ambiente à máquina, procuramos criar uma máquina capaz de operar num mundo já construído para o corpo humano: caminhar, subir degraus, abrir portas, transportar objectos, utilizar ferramentas e reagir ao inesperado.
É uma mudança de paradigma. E quando à mecânica, electrónica, controlo, visão computacional e sensorização acrescentamos modelos de inteligência artificial capazes de interpretar linguagem e contexto, aproximamo-nos de uma automação em que o ser humano poderá indicar cada vez mais o objectivo, em vez de programar minuciosamente cada movimento necessário para o atingir.
Isto não significa que as fábricas autónomas ou os humanoides estejam prestes a dispensar as pessoas. Significa que a divisão entre tarefas humanas e tarefas automatizáveis está novamente a ser negociada. A História da tecnologia é, em larga medida, a História dessa negociação.
A tecnologia também pode devolver autonomia
O debate torna-se ainda mais relevante quando abandonamos a ideia de que tecnologia significa apenas produtividade. Para uma pessoa com deficiência, uma inovação tecnológica pode significar algo muito mais elementar: comunicação, independência, educação, emprego e participação social.
Enquanto pessoa com deficiência auditiva e utilizador de tecnologias auditivas, conheço essa diferença na primeira pessoa. Há algumas décadas, muitas pessoas com deficiência eram encaradas sobretudo pelas suas limitações e afastadas de oportunidades que hoje consideramos direitos básicos. Também na saúde mental, pessoas que necessitavam de tratamento podiam permanecer institucionalizadas durante longos períodos, em modelos e condições que hoje seriam amplamente questionados. A evolução científica, médica, tecnológica e social não resolveu todas as desigualdades, mas alterou profundamente aquilo que entendemos por capacidade, autonomia e qualidade de vida.
Por isso, quando discutimos longevidade, envelhecimento ou receamos um futuro excessivamente tecnológico, existe uma pergunta que não deveria ser esquecida: estamos a imaginar o futuro com as condições do futuro ou simplesmente a projectar nele as limitações do presente?
Viver mais anos só será progresso se esses anos puderem ser vividos com dignidade, saúde, autonomia, relações humanas e participação. É precisamente aí que medicina, engenharia, acessibilidade, robótica e inteligência artificial podem encontrar uma das suas utilizações mais nobres: não substituir a vida humana, mas ampliar as possibilidades de a viver.
Uma transformação psicológica
Há ainda uma dimensão menos visível. A inteligência artificial está a provocar uma transformação psicológica na nossa relação com as máquinas. Nos primeiros chats, o computador era apenas o meio: uma pessoa escrevia e outra pessoa respondia. Hoje podemos conversar com um sistema artificial, pedir-lhe que organize informação, confronte argumentos, traduza, programe, descreva imagens ou participe numa reflexão.
Isso ajuda a explicar o verdadeiro campo de batalha de opiniões que se formou em torno da IA. Há entusiasmo e medo, curiosidade e rejeição, confiança e desconfiança. Não estamos apenas a introduzir uma nova ferramenta. Estamos a mexer numa fronteira cultural que durante séculos pareceu evidente: determinadas capacidades pertenciam exclusivamente ao domínio humano.
Há razões sérias para prudência. A IA levanta questões sobre emprego, privacidade, desinformação, segurança, concentração de poder, propriedade intelectual e dependência cognitiva. A resposta, porém, não pode ser recusar a inovação nem aceitá-la cegamente. Tem de passar por conhecimento científico, regulação, ética, educação e participação social.
Uma nova etapa
Todas as gerações tendem a olhar para o seu presente como se este fosse mais estável do que realmente é. No entanto, a História mostra sucessivas rupturas: a mecanização, a electricidade, o automóvel, a aviação, as telecomunicações, os antibióticos, o computador pessoal, a Internet. Em cada uma delas houve ganhos, riscos, resistência e adaptação.
Talvez seja cedo para afirmar que estamos a entrar numa nova Era. Mas é difícil ignorar a singularidade do momento: depois de automatizarmos força, movimento, cálculo e comunicação, começamos a automatizar partes de actividades que associávamos ao raciocínio, à linguagem e à adaptação.
A pergunta essencial não deveria ser se devemos travar o futuro. Deveria ser que futuro queremos construir com estas ferramentas e quem queremos que dele beneficie.
Já nos questionámos em diversos momentos da História sobre a evolução e a inovação. Talvez estejamos apenas perante mais uma etapa desse percurso. A evolução certamente não ficará por aqui. E, se soubermos colocar ciência e tecnologia ao serviço das pessoas, aquilo que hoje nos inquieta poderá também abrir possibilidades que ainda não conseguimos imaginar.
António Ricardo A. Miranda
