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Enigmas do Médio Oriente

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Os Bibas — Yarden (pai), Shiri (mãe), Ariel (filho, quatro anos) e Kfir (filho, nove meses) — eram uma família sefardita residente num kibutz (comunidade cooperativa) do sul de Israel, próximo da faixa de Gaza. Embora de origem argentino-peruana, o nome Bibas é uma corruptela do português Vivas. No dia 7 de outubro de 2023, quando o Hamás desferiu um ataque medonho contra civis israelitas, os Bibas foram capturados pelos homens do Hamás e de uma milícia independente que colaborava com o grupo islamista radical Mujahideen. Primeiro, mataram os pais de Shiri, José Luís Silberman, artista plástico que fugira da ditadura argentina em 1976, e Marguit Schneider, de origem peruana. Num vídeo que circulou por todo o mundo, via-se o ar desesperado de Shiri, educadora de 32 anos que costumava integrar nas suas aulas os povoados vizinhos de Gaza situados a pouco mais de um quilómetro, rodeada de homens armados e encapuçados, com os dois filhos ao colo, a ser arrastada e empurrada para a faixa de Gaza. 

De madrugada, no início do massacre, Yarden abandonara o abrigo entrincheirado da sua casa, confiando que os terroristas o perseguiriam sem tocarem na mulher e nos garotos. Mas o seu esforço foi em vão. Os atacantes incendiaram-lhe a casa e levaram-no de mota, golpeando-o brutalmente. Sangrando, meteram-no num túnel onde permaneceu 16 meses às escuras, acorrentado de braços e pernas. Foi libertado em fevereiro de 2025, na primeira fase do cessar-fogo. 

A primeira coisa que Yarden perguntou foi se a mulher e os filhos estavam vivos. Durante o cativeiro, os guardas do Hamás tinham-lhe dito que a família morrera num bombardeamento israelita. Dias depois do seu regresso a Israel, o Hamás exibiu aparatosamente quatro caixões: os dos meninos e, presumivelmente, o de Shiri, mais o de Oded Lifshitz, de 83 anos, jornalista e ativista a favor da paz. Num grande cartaz, o rosto de Benyamin Netanyahu com dentes de Drácula a escorrer sangue, dando a entender que a culpa da morte daqueles inocentes era do primeiro-ministro israelita. Mas os patologistas determinaram que as crianças tinham sido estranguladas a sangue frio cerca de um mês depois de capturadas. 

No dia 7 de outubro de 2023, foram mortas 1195 pessoas (pelo menos 828 civis, incluindo 36 crianças e 71 estrangeiros). Os terroristas queimaram pessoas vivas. A um bebé meteram-no num forno aceso. Amarraram uma mãe à filha, regaram-nas com querosene e atearam-lhes fogo. Num dos kibbutzim atacados, uma rapariga sobreviveu fingindo-se morta debaixo de cadáveres, de onde viu violarem em série uma mulher e em seguida atearem-lhe fogo. 

No festival de música Nova, que estava a decorrer próximo da fronteira com a faixa de Gaza em celebração da paz, houve 378 mortes (344 civis e 34 agentes de segurança). Note-se que quem nele participava eram maioritariamente israelitas favoráveis ao entendimento com os palestinos (apoiantes, por exemplo, dos movimentos «Paz Já!» e «Paz em Troca de Terra»). 

Ao princípio, as vozes predominantes no Ocidente eram de condenação do terrorismo palestino e de solidariedade para com Israel. 

Mas o mundo ocidental parece gostar de ver Israel no papel de vítima. 

O Hamás sabia que Israel ripostaria desferindo golpes de morte, o que faria as cabeças bem-pensantes solidarizarem-se com os palestinos. O Hamás instalava as suas infraestruturas de ataque por baixo de escolas, jardins de infância, hospitais e até normais edifícios residenciais. Quanto mais vítimas civis (mártires de Alá) melhor. Para o Hamás (e o seu irmão Hezbollah, que controla o Líbano, à revelia do governo libanês legítimo), os civis palestinos são instrumentos de guerra. 

Na manipulação das consciências, uma certa esquerda bem-pensante é extremamente eficaz. Estabeleceu que Israel é o inimigo a abater e os movimentos pró-palestinos são vítimas coitadinhas. Consegue incutir e impor a sua dicotomia bons-maus — por tal forma que ninguém ousa tomar posições suscetíveis de despertar a infamante acusação de pró-israelita. Nestas circunstâncias, os factos tornam-se de somenos importância. E facto é que Israel integrou mais de 800 mil refugiados judeus banidos de terras árabes em África e na Ásia e concedeu cidadania a mais de 2 milhões de árabes que optaram por permanecer dentro das fronteiras israelitas. Sim, Israel é a pátria de mais de 2 milhões de árabes, a maioria dos quais muçulmanos e todos detentores de direitos democráticos, incluindo representantes eleitos no parlamento israelita (Knesset) desde 1949. 

Pegando no tema LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e pessoas transgénero), caro à esquerda bem-pensante, cito o ensaísta luso-brasileiro Paulo Nogueira no livro O Cancelamento do Ocidente:

«Israel está na vanguarda dos direitos LGBT no Médio Oriente. Lá, as pessoas LGBT são membros visíveis da sociedade, com proteções legais e direitos civis, e aceites pela generalidade dos cidadãos. A Palestina é outra história. Um relatório de 2021 do Williams Institute da Universidade da Califórnia sobre a aceitação de LGBT em 175 países/territórios classificou a Palestina em 130.º lugar, atrás da Rússia, da Arábia Saudita e do Congo. O relatório de 2020 da Amnistia Internacional sobre direitos humanos destaca que em Gaza as relações entre pessoas do mesmo sexo são puníveis com, no mínimo, 10 anos de prisão. Por causa disso, centenas de gays e bissexuais palestinos fugiram para… Israel. Um desses refugiados, Ahmad Abu Marhia, um palestino gay de 25 anos, vivia sob asilo em Israel quando, em 2022, foi sequestrado e decapitado na cidade de Hebron, na Cisjordânia — os seus algozes publicaram imagens do assassínio nas redes sociais. Ou seja, os Queers for Palestine poderiam marchar nas paradas do Orgulho LGBT em Israel. Na Palestina, seriam presos ou mortos.» 

Parte da explicação deste paradoxo reside na penetração comercial, económica, mediática e militar do Irão em determinadas zonas do globo. Por exemplo, Teerão estreitou relações com a América Latina a partir da cimeira de chefes de Estado da Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) de 2000, realizada em Caracas, sob o patrocínio do presidente venezuelano de então, Hugo Chávez Frías. O presidente do Irão, Mohammad Khatami, representou o seu país. No rescaldo da cimeira, o Irão passou a considerar prioritária a América Latina (uma das regiões do globo onde o antissemitismo mais se intensifica hoje em dia), mas sobretudo prioritária a penetração ideológica junto da intelectualidade ocidental. 

Assim sendo, é comum milhares de jovens da geração TikTok em diferentes partes do mundo repetirem slogans anti-israelitas diretamente procedentes da sede da Guarda Revolucionária iraniana. O TikTok é a rede social por excelência entre as camadas mais jovens. Lembro-me que, quando regressou de Gaza depois da aventura da flotilha, Mariana Mortágua era rodeada de jovens fascinados, querendo tocar na «heroína». Por alguma razão, o Irão dos aiatolás apostou no TikTok. 

Continuemos no Irão: durante a década de 1960 do século XX, o aiatolá Ruhollah Khomêini, grande mentor da revolução islâmica de 1979 e antecessor do recentemente falecido Ali Khamenei no posto de «líder supremo do Irão», compilou na sua obra basilar Tahrir al-Wasilah — em português: «Clarificação dos Meios (para a Salvação)» — jurisprudência baseada na xaria (lei islâmica), sobre o comportamento dos machos para com as meninas. Assim, no seguimento do que o profeta Maomé fez, não é lícito um macho casar-se com uma menina de 5 anos de idade (eu disse: cinco). À semelhança do que fez o profeta, o macho deve esperar pelos 9 anos de idade da menina (eu disse: nove) para só então consumar o casamento. Mas qualquer macho pode afastar as coxas de uma menina em amamentação (eu disse: menina em amamentação), tocar-lhe as partes genitais, esfregar-se nela. Não é pecado. 

Sinceramente, não sei o que pretendem os autodesignados progressistas do mundo ocidental. A implantação da xaria entre nós provavelmente não. MUITO PROVAVELMENTE NÃO! Adoram viver no nosso tempo e com os nossos valores. Porém, no conforto das democracias ocidentais, dão abébias à ideologia woke, nos termos da qual o Ocidente deve ser sempre fustigado, ao passo que os horrores, por mais medonhos, do não-Ocidente devem ser sempre tratados com benevolência. 

Na guerra que desencadeou há dias contra o regime dos aiatolás, ter-se-á Trump sentido movido por um genuíno repúdio desta barbaridade? Provavelmente não. MUITO PROVAVELMENTE NÃO! Trump não se impressiona com isto. Os seus motivos são outros. Quanto aos de Israel, parecem claros: eliminar um regime que apostou na sua destruição (os aiatolás tinham até estabelecido um prazo para esse objetivo: 2040, o mais tardar). 

Argumentam os adversários de Israel que não há provas de o Irão dispor de armamento nuclear. A verdade, porém, é que, até há pouco tempo, os dirigentes iranianos não negavam o seu objetivo de vir a desenvolver esse armamento, reclamando o direito a ele e a prosseguirem o programa de enriquecimento de urânio. Alegavam fins meramente pacíficos (produção de energia elétrica em centrais nucleares, como acontece em tantos países), mas, se a produção de energia elétrica em centrais nucleares exige urânio em concentrações de apenas 3 a 5%, por que razão estava o Irão a enriquecê-lo a mais de 60% (segundo algumas fontes ocidentais, iria já em 83%)? Além disso, sendo o Irão um país riquíssimo em recursos petrolíferos, porque precisaria do combustível nuclear para produzir energia? Na sua ânsia de acelerar uma ação contra o programa nuclear do Irão, Israel poderá ter exagerado a iminência da obtenção de bombas atómicas por parte do regime dos aiatolás, mas descartar liminarmente esse objetivo revelar-se-ia um erro drástico.

Imagino que os milhões de iranianos que sofreram (e sofrem) a tirania teocrática dos aiatolás poderão muito bem pensar: «Ainda bem que existem um Trump e um Netanyahu capazes de, finalmente, porem um fim a isto». 

Os politicamente corretos do Ocidente, arrebanhados pela ideologia woke (quer disso tenham consciência quer não), devem gostar tanto da mentalidade fundamentalista islâmica como eu. Só que o seu ódio ao Ocidente, aos Estados Unidos e, sobretudo, a Israel se sobrepõe a tudo o mais. Mal esse ódio entra em cena, tudo o mais se torna despiciendo. 

A este propósito, inspiro-me parcialmente numa postagem de Rute M. Sousa no Facebook: 

Arbel Yehud, uma mulher israelita que esteve 482 dias em cativeiro em Gaza, foi violada praticamente todos os dias, espancada e deixada à fome e à sede pelos terroristas do Hamás. 

E o que é que os jornalistas portugueses disseram sobre o assunto? Nada! 

E o que é que a comunidade internacional disse sobre o assunto? Nada! 

E o que é que as mulheres que defendem os direitos das mulheres em grandes plataformas internacionais disseram sobre o assunto? Nada! 

E o que é que os ativistas da ONU disseram sobre o assunto? Nada! 

E o que é que o povo palestino tem a dizer sobre o assunto? Segundo a organização Arab World for Research and Development, sediada na Cisjordânia, a percentagem da população da faixa de Gaza que apoia convictamente o que se passou no dia 7 de outubro de 2023 abeira-se dos 70%. 

E o que temos nós todos dito sobre este assunto, sobre estas sondagens, sobre estas manifestações? Nada! 

Há quem venha para as redes sociais (como, por exemplo, o autoproclamado ativista Bruno Neto) dizer que isto é tudo mentira, tudo invenção. 

Será que Sofia Aparício, Ana Gomes, Isabel Moreira, Capicua, Carlão, Jorge Palma, Salvador Sobral, Miguel Duarte, as irmãs Mortágua e outros conspícuos ativistas da nossa praça pensaram em organizar flotilhas «humanitárias» a favor das vítimas do fundamentalismo islâmico no Irão? 

Jorge Madeira Mendes

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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