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Da América, sem problema

Conhecem aquele setor do Atlântico Norte que é limitado a sul pela costa setentrional da Ibéria e a nascente pela costa ocidental da França? Os espanhóis chamam‑lhe golfo de Vizcaya, os franceses golfe de Gascogne. Para os países de língua inglesa, por sua vez, é Bay of Biscay. Terão os ingleses procurado fugir ao nome dado pelo secular rival francês? Ou haverá aqui influência da interação entre britânicos e castelhanos no tempo da Invencível Armada? Ignoro. Certo é que, segundo a Wikipédia, entre nós dá pelos nomes de «baía da Biscaia», «golfo da Biscaia» e também «golfo da Gasconha». 

E conhecem aquele braço de mar situado entre a costa meridional da Grã‑Bretanha e a costa noroeste da França? Os ingleses, muito patrioticamente, dão‑lhe o nome de English Channel. Os franceses, tão «proprietários» do dito como os vizinhos do norte (mas, convenhamos, um pouco menos bairristas… pelo menos neste caso), chamam‑lhe mer de la Manche. Este nome deriva, presumivelmente, da forma do braço de mar, a lembrar a manga de um gibão. 

[A título de curiosidade, refiro que a designação adotada em português foi «canal da Mancha», como se houvesse ali nódoas ou coisa parecida. Enfim, um daqueles erros que se perpetuam por inércia. Consola‑me saber que os nossos vizinhos espanhóis laboraram no mesmo erro… e também lhe chamam canal de la Mancha.]

Continuando pelas mesmas latitudes, assinalo que o estreitamento pelo qual o mar do Norte comunica com este famigerado canal é conhecido em Inglaterra como Strait of Dover, em óbvia homenagem à cidade inglesa situada na correspondente margem do estreito; em França, é o pas de Calais, em óbvia homenagem à cidade francesa situada na margem oposta. Patriotismos. 

Há na Europa um país enquadrado pela Alemanha, a Chéquia, a Eslováquia, a Ucrânia, a Bielorrússia, a Lituânia e um exclave sob domínio russo, o qual as línguas europeias, na sua maioria, designam por variantes de um mesmo étimo (Polska, Pologne, Poland, Polen… Polónia). Sabem os meus leitores que, na Hungria, este país se chama Lengyelország? 

Ainda na maioria das línguas europeias, a capital da Áustria dá por nomes manifestamente derivados de um mesmo étimo: Wien, Vienne, Vienna, Wiedeń… Viena). Na Hungria, chama‑se Bécs (lê‑se /Bêtch/). 

Permita‑se‑me agora recuar, digamos, 66 milhões de anos, quando um asteroide chocou com a Terra e, consta, causou a extinção em massa dos grandes dinossáurios (não só diretamente pelo impacto em si, como também pelo consequente maremoto e pelas nuvens de poeira que, durante anos a fio, cobriram o sol em toda a superfície, resfriando drasticamente a temperatura média do globo). A colisão cavou um buracão que o Atlântico rapidamente inundou. Muito tempo depois, quando já existia uma espécie de macaco autobatizada como Homo sapiens, esta espécie deu‑se conta de que, no planeta Terra, havia mares, oceanos, continentes, territórios, países, civilizações, culturas, línguas… e, na língua que adotou oficialmente, uma dessas civilizações chamou ao buracão golfo de México, uma vez que as águas dele ladeiam a costa oriental do país na mesma língua chamado México. Circunstancialismos. 

Logicamente, estes nomes foram adaptados para outras línguas do tal primata falante: «golfo do México», golfe du Mexique, Gulf of Mexico… 

Parece é que os dirigentes (primatas da nossa espécie) de um outro país, este chamado em português «Estados Unidos da América», igualmente ladeado (na sua costa meridional) pelo buracão inundado, querem que este deixe de se chamar Gulf of Mexico e passe a ter o nome de Gulf of America. 

O problema afigura‑se‑me «grave» — tão «grave» como os húngaros chamarem Lengyelország à Polónia e Bécs a Viena; 

como os britânicos chamarem English Channel e Strait of Dover àquelas massas de água que os franceses designam, respetivamente, por mer de la Manche e pas de Calais; 

como os espanhóis chamarem golfo de Vizcaya ao que os franceses conhecem como golfe de Gascogne; 

como os franceses chamarem lac Léman ao que os suíços chamam lac de Genève; 

como os alemães chamarem Bodensee ao que na Suíça francófona corresponde a lac de Constance; 

como os alemães chamarem die Moldau ao rio que atravessa Praga e que em checo tem o nome de Vltava (posso acrescentar que, em português, o nome do rio é «Moldava», talvez porque para nós a fonética alemã é mais facilmente reprodutível do que a checa); 

como em francês se chamar Lille, Anvers e Mons às cidades que, em neerlandês, se designam respetivamente Rijsel, Antwerpen e Bergen; 

como em francês se chamar Aix‑la‑Chapelle à cidade alemã de Aachen (a qual, note‑se, já correspondeu a «Aquisgrano» em português); 

como os países de língua inglesa chamarem Lake Malawi à massa de água doce que em Moçambique tem o nome de «lago Niassa»; 

como os países de língua inglesa chamarem Tagus ao nosso «Tejo» (que os espanhóis designam por Tajo)… 

Senhor presidente Donald John Trump, quer Vossa Excelência que, no seu país, o golfo do México passe a designar‑se Gulf of America? No problem. 

Ao fim e ao cabo, as terras que ele banha situam‑se — todas — num continente a que a nossa espécie dá (universalmente, penso) nomes derivados de «América». Frankly, my dear, nobody should give a damn!

Jorge Madeira Mendes

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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