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A Sabedoria disse um dia ao Amor

Meu amor, saibamos viver
bem e serenos os longos dias
que ainda nos separam
da nossa vida juntos
e saibamos escutar de alma aberta
o riso dos nossos filhos
correndo escadas abaixo, escadas acima
na nossa casa por construir
e nós ralhando mas sorrindo por dentro
e eles roubando massa crua na cozinha
das tijelas que esperam por ir ao forno,
e brincando no jardim, roendo maçãs
mordiscando ameixas, lambuzando-se
com morangos e mirtilos e amoras
sob a sombra benevolente do velho castanheiro.

Esses dias do futuro, meu amor
que parecem tão errantes e distantes
talvez estejam mais próximos do que supomos
porque vivem em nós e nós já vivemos neles
apesar de não serem reais
mas o que é real se já os vivemos agora
mesmo antes deles existirem?

Enquanto isso, meu amor,
porque nem a sabedoria
sabe ser sensata nem a poesia
vem dançar nos meus olhos
e na minha boca e no meu corpo
desfibrila o meu coração, faz-me reviver
luz deslumbrante dos meus dias
doce sonho das minhas noites
dá-me a tua mão e vem
beber desse amor tão belo
tão puro, tão natural e nasceu
tão espontaneamente e total
sem que o queréssemos, quiséramos, quiséssemos, …
eu perco-me nos tempos verbais
porque o meu coração é intemporal
e os nossos peitos deixam de ser plurais
quando batem em uníssono.

O nosso tempo virá, meu amor
e agarrá-lo-emos em pleno voo
se preciso for
porque a queda não nos assusta
já o provámos demasiadas vezes
nem o voo ou a vertigem
nem o céu ou o horizonte
nem o destino, essa puta
nem o futuro, esse inconstante.
O nosso tempo virá
porque não pode ser de outra forma
está escrito, nas estrelas, no cosmos
em tudo o que é, pois tudo o que é
quer assistir à nossa felicidade
e até mesmo, esse louco, quer saboreá-la connosco.

E nós, que não somos parcos em nada
daremos de beber a todos
esses sedentos de vida
porque o nosso amor é vida, e luz,
e matéria, e fogo e tudo.
Eles não o sabem, e nós também
ainda só o estamos a descobrir agora.

JLC14102019
(Imagem: “O Amor e Psiqué” de Antonio Canova, 1757-1822)