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O rei Salomão, Trump e Bolsonaro

Que o teu Deus torne o nome de Salomão mais famoso que o teu, e o seu reinado mais glorioso do que o teu!”’
I Reis 1, 47

Aquando da eleição de Donald Trump já se tinha percebido o peso de muitas igrejas evangélicas. Com a escolha de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil, esse peso tornou-se ainda mais claro, com contornos bastante nítidos e com o recurso a uma semântica que quase anula a laicidade do Estado – basta atentar, por exemplo, para a naturalidade com que um pastor evangélico orou pelo recém eleito Presidente mesmo antes do discurso oficial de vitória, lançando o mote para uma constante referência a Deus por parte de Bolsonaro. Este agradece a Deus e afirma a sua vitória com um juramento a Deus e, ao lado, a esposa vai respondendo, após algumas das frases do marido, “ámen”, como se estivesse num culto religioso.

Hoje é claro que Bolsonaro descolou para a vitória em dois momentos: quando sofreu o atentado e quando Edir Macedo, fundador e presidente da IURD, lhe deu o seu apoio. Neste segundo caso, tal aconteceu depois de muito trabalho do então candidato presidencial a desenvolver e a nutrir na burguesia brasileira o medo de que o PT avançasse nas reformas que iriam mudar a moral do país. Esta fobia moralista, marcada por fake news que inventaram manuais escolares a defender o suicídio, que forjaram declarações polémicas sobre a sexualidade das crianças, apresentou um Bolsonaro campeão do regresso a uma ordem moral perdida, a uma cristianização da sociedade, a um ultraconservadorismo que demonizou todo e qualquer avanço social ligado às questões que foram rotuladas, negativamente, como “ideologia do género”.

Seja no caso de Trump, seja no de Bolsonaro, a visão quase messiânica surge de forma clara nas mecânicas que os discursos evangélicos consolidaram e que levaram os crentes a uma postura totalmente acrítica face às contradições, exageros e mesmo violência verdadeiramente anticristã de algumas das suas tomadas de posição.

Bolsonaro, antes de se dirigir ao país, introduz o pastor Magno Malta, dizendo que ele “vai pedir sabedoria para que possamos continuar nesta jornada”. Nessa oração, o pastor não só pede a Sabedoria, tal como biblicamente Salomão a havia pedido, como nos dá ainda outra chave de leitura da valorização do eleito Presidente: foi Deus que salvou Bolsonaro de uma morte certa num momento tão esperançoso para o Brasil; se assim foi, então essa salvação no atentado implica uma missão divina. No seu discurso, Bolsonaro recupera esta ênfase, afirmando que nunca se sentiu sozinho, pois sempre sentiu “a força de Deus e do povo brasileiro”. Esta era uma “missão de Deus”.

É deveras interessante que a IURD, igreja com mais de 11 milhões de membros no Brasil, tenha sido um dos principais apoios de Bolsonaro. Esta igreja construiu em São Paulo um “Templo de Salomão”, recuperando toda a simbólica judaica desse antigo e desaparecido espaço de culto. Bolsonaro é, nestes discursos após a eleição, um Salomão que pede a Sabedoria (paralelo em vários momentos da Bíblia, nomeadamente em I Reis), um Rei ungido, como os monarcas do Israel antigo, escolhido para uma tarefa única.

Mas com Trump este paralelo vai ainda mais longe na formulação teológica. Várias igrejas evangélicas radicais, nos seus websites, afirmam o Presidente Trump como um Rei Salomão, um ungido para a tarefa divina de recristianizar uma América que não só deixou de ser grande em termos económicos, mas em termos morais. Trump surge como o cavaleiro que subjugará a desordem lançada pelos Democratas, tal como no Brasil Bolsonaro surge como o libertador da esquerda – o pastor Magno Malta começou a sua oração por afirmar que “os tentáculos da esquerda jamais seriam arrancados sem as mãos de Deus”.

Com uma variante muito interessante na identificação bíblica, para o Temple Mount and Land of Israel Faithful Movement, Trump é a concretização das visões proféticas da reconstrução do Templo de Jerusalém. Trump, na leitura destes radicais evangélicos-messiânicos, é um novo Rei Ciro que, à imagem deste monarca persa que libertou o povo de Israel do cativeiro na Babilónia e mandou reconstruir o Templo, também ele dará início à reconstrução do mesmo Templo, inaugurando a Era Messiânica, no fundo, a concretização dos tempos, o Fim dos Tempos – de notar que estas leituras nada têm a ver com o judaísmo, tratando-se, na sua quase totalidade, de movimentos evangélicos fundamentalistas de cariz judaizante.

No caso norte-americano, algumas igrejas vão mais longe na identificação de Trump com o monarca de Israel. Tal como Salomão, Trump tem toda uma tarefa de reorganização da nação, impondo o seu poder, combatendo os inimigos de Deus. Mas mais, Trump tem a missão, também concretizada por Salomão, de devolver ao país a dimensão imperial, o seu efectivo poderia militar. Por fim, tal como Salomão, sendo ungido, caiu em tentação e pecou, também Trump o faz, imagem de que é humano, mas determinado no que é essencial, o trabalho a bem de Deus e da nação.

Esta leitura teológica de Trump tem uma capacidade única de, ao seguir a história de vida de Salomão, com amantes e relações moralmente questionáveis, legitimar todas as suas falhas. Ter acusações de prática e conduta sexualmente mal vistas na moral que defende “apenas” é a prova de que ele é como Salomão. Isto é, nesta lógica religiosa, a falha é a marca da eleição. Quanto mais se acusar Trump, mais os seus seguidores, ou melhor, crentes, o verão como ungido, messias.

O material do nacional-populismo ganha, desta forma, uma legitimação divina, respaldada numa infalibilidade a toda a prova. Mais que carisma, no sentido de ser carismático pela empatia criada perante o populus, Bolsonaro e Trump surgem religiosamente no campo da graça, da ligação a uma tarefa divina, verdadeiramente carismática porque receberam um carisma.