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De bestial a besta

© lusa

Não sou — nem por aproximação — a pessoa mais indicada para falar de futebol.
Mal conheço as regras básicas do jogo. Conceitos como «pontapé de canto», «penalidade» ou «lançamento lateral» só me dizem aquilo que os próprios nomes indicam. Quanto ao «fora de jogo», por mais que mo tenham já tentado explicar, continua tão hermético como o que se passa na face oculta da Lua.

Limito-me à satisfação íntima pelos êxitos que a Equipa das Quinas ou os clubes portugueses conseguirem em competições internacionais. A nível interno, quando era miúdo, tornei-me apoiante de um dos grandes clubes de futebol da altura, pelo elevadíssimo motivo de a minha irmã e o meu irmão, mais velhos, serem adeptos do outro dos grandes. E creio que só uma vez, em casa de amigos, assisti a um jogo da seleção nacional, nem sei já dizer se para o Mundial se para o Euro.

Não quer isto, porém, dizer que o futebol não me belisca. É uma presença difícil de eludir, quanto mais não seja por penetrar, quase sempre impertinentemente, no meu espaço, através dos órgãos de informação (rádio, televisão). Enquanto atividade desportiva, tem o seu mérito intrínseco e evidente, mas desmoraliza-me que se trate do único elemento galvanizador na generalidade das sociedades humanas. Confesso que preferia que Portugal brilhasse — também — noutros domínios, nas artes, na ciência, nos valores humanos mais vanguardistas…

Há uns anos, vi na televisão um debate sobre o papel do futebol na sociedade. Estavam presentes pessoas como o escritor e jornalista Fernando Dacosta e o político Miguel Portas (falecido em 2012). Este último apresentava-se como defensor do futebol ou, pelo menos, como alguém que o encarava com benevolência. Se bem me recordo, Miguel Portas sustentava que, sendo as sociedades humanas eminentemente belicosas, era muito menos funesto canalizarem o seu instinto de competição e rivalidade para uma atividade relativamente inócua (como um torneio desportivo) do que para duelos ou guerras a sério.

Já Fernando Dacosta não ocultava a sua ausência de empatia pelo futebol.

Pois bem, durante a fase de intervenção do público, um qualquer ouvinte telefonou, atacando virulentamente Fernando Dacosta por não gostar de futebol e perguntando mesmo se ele seria digno de ser português! Imagine-se, a nossa qualidade de portugueses e o nosso patriotismo serem eminentemente definidos em função da empatia por uma competição desportiva…

Passando ao caso concreto de Cristiano Ronaldo, não sei se ele está velho para continuar a jogar. Tem-se alegado a fraqueza da sua atuação e não é raro lembrarem-lhe que há que saber quando parar, etc., etc. Mas será que os críticos estarão bem dentro da problemática? Há pouco tempo, ouvi a escritora e jornalista Clara Ferreira Alves insurgir-se contra aqueles a quem chamou «treinadores de bancada».

A verdade é que Cristiano Ronaldo, de longe o maior futebolista português de todos os tempos (valha isso o que valer), é, neste momento, a pessoa que mais visibilidade dá ao nome de Portugal.

Tem sido, é certo, bem remunerado. Partindo de uma infância pobre na Madeira, acumulou um património cujo montante ele próprio confessa ignorar. Mas patrocina com indesmentível generosidade causas e indivíduos que, por vezes, nem sequer conhece pessoalmente. E importa salientar que a «remuneração» de Cristiano Ronaldo não é estabelecida por nenhuma entidade governativa e, portanto, não pesa ao erário público. Quem determina o valor de um futebolista é o mercado: o futebolista valerá exatamente aquilo que alguém estiver disposto a pagar por ele. E quem paga são os clubes, voluntariamente providos pelas respetivas massas associativas. No mundo do futebol, a «remuneração» de Cristiano Ronaldo é normal e meritória e não decorre da intervenção de entidades públicas.
Mas este é também um mundo no qual gratidão e reconhecimento não impressionam. Hoje glorificado, amanhã crucificado. De bestial a besta, sem contemplações.

Apontam-lhe vaidade, arrogância…

Tê-las-á, mas são mais pecadilhos do que defeitos.

Há dias, uma das nossas cadeias de televisão apresentou um país longínquo, desconhecido para a esmagadora maioria dos portugueses (se bem que os primeiros ocidentais que lá chegaram tenham sido os missionários Estêvão Cacela e João Cabral, no remoto ano de 1627, em plena dinastia filipina). Chama-se Butão, tem menos de metade da área de Portugal, é hoje habitado por menos de um milhão de pessoas e está periclitantemente aninhado nas vertentes meridionais do Himalaia, a leste do Nepal. Étnica e culturalmente próximo do Tibete, exibe uma placidez budista que já lhe valeu a classificação de «terra da felicidade». Na década de 1970, Jigme Singye Wangchuck, quarto rei do Butão, declarou que a Felicidade Nacional era mais importante do que o Produto Interno Bruto.

Mas o que tem isto a ver com futebol ou com o Ronaldo?

Apenas o seguinte: a referida reportagem acompanhava um grupo de turistas portugueses, entre os quais um casal com um filho de tenra idade. E viam-se garotos de uma escola local fascinados com o loiríssimo portuguesito. A mais velha do grupo, adolescente já iniciada no inglês, explicou que nunca tinham visto «a Portuguese child». As praias da Lusitânia seriam para eles tão exóticas como os cumes himalaianos para a quase totalidade dos portugueses.

O único elemento que a Portugal associaram, aliás em uníssono, foi «Cristiano Ronaldo!».

Era só aqui que eu queria chegar quando, aparentemente a despropósito, citei o Butão numa dissertação sobre o futebol em geral, o futebol em Portugal e o Cristiano Ronaldo.

Jorge Madeira Mendes

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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