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Porque chora este bebé? (Primeira parte)

Cada recém-nascido contém o verdadeiro segredo da vida…

(Nota do autor; Este texto não é de maneira nenhuma baseado em factos verídicos, mas antes, fruto da minha imaginação e porque não dizê-lo, dos meus devaneios. Porém, ao longo do texto vão surgindo certos temas que algumas pessoas poderão de uma ou outra maneira achar um pouco perturbadores uma vez que estão relacionados com a morte e o medo de morrer. Apesar de tudo, apesar da delicada natureza do tema e do significado a ela associada, a mensagem é uma mensagem de esperança e de Fé., mas porque somos todos tão diferentes e tão iguais, pessoas mais sensíveis a determinados factos escritos neste texto, que reafirmo, é fruto da minha imaginação, poderão sentir-se afetados emocional e psicologicamente. Se acha que é uma pessoa sensível a este tipo de reflexão, por favor não leia) 

Sabemos agora o nome do recém-nascido. Aurélio dos Santos Florindo. E a razão pela qual chora logo após ter nascido, é a mesma razão comum a todos os recém-nascidos assim que dão entrada neste mundo.

Não são, porém, as razões que muito provavelmente afloram na imaginação de quem eventualmente no momento esteja a ler estas palavras escritas.

Neste caso, Aurélio dos Santos, chamemos-lhe a partir de agora unicamente, Florindo pois já se me escasseia a tinta na caneta, tem um motivo muito particular para desatar numa choradeira espontânea, sinal de que tudo está bem, assim se vem pensando desde tempos longínquos, motivo esse que é comum a todos os outros recém-nascidos.

A história de Florindo não começa no dia em que nasceu, mas sim nas semanas que antecederam a sua morte aos 87 anos de idade. Só seguindo o rasto dessas semanas de doloroso e quase insustentável sofrimento, se pode perceber a razão pela qual, erradamente se vem pensando ao longo dos tempos, que a choradeira espontânea e denotadora de que o recém-nascido dá através desse gesto sinais de que tudo está bem, de que nasceu dentro dos parâmetros e requisitos esperados em qualquer recém-nascido não é de todo correta…

O nome do Florindo foi escolhido muito antes de ele ter nascido. No entanto, confirmou-se primeiro a existência da gravidez da mãe uma vez que um alarme falso não é algo tão incomum assim, e não há nada mais triste e desolador do que os momentos que se seguem ao constatar que a razão da alegria que motivou essa mesma alegria, afinal era falsa.

Não estamos aqui para contar a história da vida do Florindo, até porque, já se disse, é apenas um recém-nascido, e a sua história está ainda por começar, mas, única e simplesmente para perceber o porquê de Florindo desatar num berreiro quase ensurdecedor, mas de certa maneira agradável aos ouvidos de quem dele espera um sinal de que tudo está bem, logo após o seu nascimento.

Por esse motivo teremos que recuar no tempo para apanharmos as últimas semanas de vida do António, semanas essas que nos serão suficientes para apanhar o fio à meada.

Não fosse já o suficiente uma vida de sacrifícios, intercalada com alguns momentos de uma duvidosa alegria a maior parte das vezes, e aquela manhã que deveria ser como tantas outras, acordar e viver um dia mais a contas com a velhice, e eis que uma dor acompanhada por um mal-estar, dor e mal-estar esses diferentes do que até aí havia experimentado, e deslizou cama fora em silêncio para não perturbar quem podia ainda disfrutar da quietude tranquila do descanso tão necessário em horas tão madrugadoras.

Pegou no roupão por cima do pijama de flanela que nessa manhã não era nem por sombras tão confortável como o havia sido noutros dias, e em pantufas saiu do quarto, passou quase como uma sombra pelo corredor, atravessou a cozinha, transpôs a varanda e desceu as escadas de acesso ao quintal traseiro da casa. Depois apoiou a mão esquerda na macieira que ao longo dos anos tratou e ajudou a criar, e esperou por um alívio que lhe pudesse afastar aquele mal-estar, mas nem a fresca brisa da manhã, nem a macieira a espalhar um suave perfume à sua volta, foram suficientes para que daí colhesse algumas melhoras, ou, por pouco que fosse, algum alívio.

Soube nesse preciso momento que algo não estava bem. E lá no fundo do seu ser, mesmo que ao de leve, como quem teimosamente luta com forças que se lhe escasseiam drasticamente recusando-se a ver, vendo, premeditou o início do fim. Depois foi uma aflição enorme, quase como que inevitavelmente houvesse batido com a cara de frente contra um muro que nem sequer estava lá, e a seguir…jorrou um vómito de sangue de um vermelho escuro e coalhado. Cedendo às forças que lhe sobrecarregavam as pernas, deixou-se cair para a frente, perdendo por completo os sentidos. Acordou horas depois numa cama de hospital, confuso, com poucas lembranças do motivo pelo qual se encontrava ali no momento. O pijama continuava a ser de flanela, mas o padrão já não era o mesmo.

As vozes que começou por ouvir primeiro em surdina, misturadas com um estranho, longo e vagaroso acordar, e uma semiconsciência muito pouco clara, foram-no de certa maneira despertando para a realidade do quarto.

Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, algo que fez muito depois de estar já a ouvir as vozes, conseguiu distinguir a esposa e o médico que conversavam.

Dela pode notar no tom da voz uma espécie de tiritar que acompanhava, pela gravidade da situação, um ar preocupado, aflito e triste, e do médico um certo ar de compaixão mas ao mesmo tempo firmeza profissional, comum em situações desta mesma estirpe e ao qual se foi habituando a lidar ao longo dos anos, para transmitir notícias que ninguém quer ouvir.

O tiro de partida para a contagem decrescente na roda da vida havia sido dado desde aquela fatídica manhã em que deslizou da cama numa aflição tremenda para que mais tarde, ao ser encontrado estendido no chão sem sentidos, se desenrolasse o processo que o haveria fazer consciente de uma realidade cruel, a de que tudo tem o seu tempo e nada dura para sempre.

Percebeu então que a mente se prepara para o fim muitíssimo tempo antes de ele chegar, mas o medo, a falta de compreensão e aceitação da sua verdadeira essência em relação com a vida, leva a que essa mesma mente desenvolva mecanismos no subconsciente que lutam constantemente entre o saber que o fim é inevitável, mas que o dia da sua chegada está sempre a uma distância tão considerável que por vezes nos esquecemos de que além de inevitável é também real. E isso, esse quase fechar os olhos à realidade, em momentos da nossa vida dá-nos a ilusão de que além de invencíveis somos também infinitos.

À medida que os dias foram passando, quando a dor finalmente venceu a morfina que deixara de funcionar apesar das suas doses serem constantemente ajustadas, quando a dor desmoronou todas as barreiras da dignidade humana, António desejou a morte, enamorou-se dela e através do insustentável sofrimento do seu corpo, desejou-a com muito maior intensidade de que o medo com que dela sempre fugiu em vida, e de certa maneira foi como se o corpo estivesse, apesar da crueldade do sofrimento, a prestar um último favor ao medo de morrer, dando lugar ao desejo do encontro com esse inevitável momento.

Quando António finalmente percebeu isso, desceu sobre si uma paz e uma tranquilidade em forma de silêncio como nunca antes havia experimentado. Parte do silêncio era fruto da ausência de palavras que a fala havia suprimido quando se calou, suprimindo ao mesmo tempo um cem número de pensamentos e sensações a ela associados, que não deixam viver verdadeiramente, pelo barulho que fazem, pela inquietação que provocam.

E cessada que estava a fala e o infindável desassossego que o significado do som das palavras que dela se entendem, António cessou finalmente os gemidos de dor, e uma paz indiscritível, um silêncio harmonioso, uma tranquilidade celestial, do mais tranquilo e celestial que a mente humana possa conceber, abraçou-o para que juntos deixassem para trás o corpo que lhe serviu de habitação durante os dias da sua vida, e partiu em direção à luz.

Só nesse momento percebeu então que o mundo é um lugar de silêncios harmonizados, de sons melodiosos que decoram esses silêncios, como que uma suave melodia tocada pela natureza, e que os barulhos que abafam esses sons do silêncio, nascem das inquietações da mente e do seu desassossego, das histórias que vamos contando a nós mesmos pelo som das infindáveis palavras que delas concebemos.

A verdadeira voz do mundo está nos sons naturais com que a própria natureza vai comunicando connosco, e que raras vezes ouvimos, só porque não lhe damos a verdadeira e merecida atenção. O suave bulir do vento quando dá nas árvores, o tinir desse mesmo vento quando se embala com as folhas caídas, o mesmo tinir da chuva quando cai sobre a terra e sobre a vegetação que a alimenta. A voz ausente de palavras, dos animais. A melodia silenciosa de uma noite amena, num céu povoado de estrelas cintilantes. As ondas do mar que se vêm estender no areal para se deixarem escorregar de volta à imensidão da água salgada, que como uma criança feliz e traquina se diverte a espraiar na areia e nos penedos.

António flutuava agora em direção à luz.

Havia um intenso brilho nessa luz que como uma espécie de íman o puxava de maneira suave mas determinada, percebendo-se que o destino não poderia ser outro senão o de penetrar nessa luz, que apesar de tudo, à medida que dela se aproximava, uma paz e uma serenidade não explicável em palavras se abatia sobre o seu Espírito.

No brilho tão especial dessa luz, à medida que a ia trespassando, uma explosão de brilhos diversos parecia eclodir por todos os lados à sua passagem, e no decorrer desse processo, dessa travessia, via desfilar toda a sua vida como se de uma película do filme dessa mesma vida se tratasse.

A noção do tempo tal como se conhece, aqui não tinha o mesmo significado, não se contava ou media da mesma maneira. Por isso, não se pode afirmar, não se pode supor ou conjeturar se no decorrer destes factos se passaram horas, dias, meses ou anos, ou apenas minutos. O Espírito divagava agora numa outra dimensão onde a figura do corpo não tinha matéria. De maneiras que, passada em revista toda a sua vida nessa película que apesar de tudo se desenrolou sem intervalos, sem cortes, sem efeitos especiais, socorrendo-nos de comparações mais inteligíveis à capacidade humana, enquanto corpo e espírito assente em matéria, só para que possamos compreender um pouco melhor aquilo que não nos é de todo possível compreender de outra maneira, digamos que em apenas uma ou duas horas, do nosso tempo tal como o concebemos, a travessia foi feita. Do outro lado, foi como se tivesse mergulhado no mais fantástico dos mundos, onde pessoas que haviam já feito a travessia anos antes da sua, e que lhe eram conhecidas e queridas pareciam esperá-lo como se soubessem antecipadamente da sua chegada.

Não que nos sirva de desculpa para justificar a falta de capacidade para encontrar palavras que possam descrever a imensidão de paz, de tranquilidade, de harmonia, de amor genuíno que emanava dessa outra dimensão à qual António agora fazia parte, mas simplesmente porque o dicionário, qualquer dicionário, por mais completo que seja, não tem palavras que possam descrever o verdadeiro significado, inteligível à nossa capacidade humana.

António tinha, no entanto, muitas perguntas a fazer, mas essas perguntas, nenhum dos que lhe eram queridos, apesar de estarem naquela dimensão muito antes dele, estavam autorizados a lhas responder. Por isso, a seu tempo, tempo esse que como já o dissemos, não se pode medir ou contar da mesma maneira tal como o concebemos, António foi levado à presença do único Espírito que podia responder às suas dúvidas. Aliás, ir à sua presença era de todo inevitável uma vez que, seria Ele a determinar o que se passaria a seguir.

(…)

(Continua)