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O Grande Livro dos Rostos

04022004
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Bem-vindo, Eu sou o Administrador.
O administrador do Grande Livro dos Rostos.
O novo e definitivo administrador,
o sapiente gestor, providencial inspirador
e o derradeiro insuflador
da tua vida sem sabor e sem cor.

O Grande Irmão é uma impostura,
ficou-se pela literatura,
eu invadi a realidade e aumentei-a,
aumentei a tua vida, ultrapassei a ficção
sem fricção.

Todos querem figurar no Grande Livro dos Rostos,
o bom e universal e novo livro,
com novas tabuinhas e novas leis,
e todos, desde a escória até aos reis,
vêm participar na nova feira das vaidades
que chegou ao campo e às cidades
e ao mundo. Urbi Et Orbi.
Ah, admirável mundo novo
chegaste finalmente aqui.

Cada um quer escrever o seu nome
em letras indeléveis e garrafais no novo livro,
só existes se apareceres no grande mural azul,
não és artista, actor, actriz, não cantas,
não tens talento nem sabes fazer nada, és pacato?,
não faz mal, aqui tens direito ao estrelato,
aqui serás alguém, aqui serás quem quiseres,
é uma promessa, é uma ameaça.

Fase 1: Deixa de ser apenas mais um

Tens de ter muitos seguidores, muitos amigos, muitos fãs
mesmo que não te conheçam,
adiciona, soma, junta, acrescenta, segue
o teu vizinho a quem nunca disseste bom dia
e a morena mamalhuda do apartamento em frente
que todas as manhãs faz fotos do decote e da tareca,
que é isso, num entendi, é xereca? não, é pussy, é gata,
c’est la même chose, idem, same, same, hein ?
Estás num novo mundo
multilíngue,
multi-níveis,
multi-nuvens,
multi-plataformas,
multi-acções
infinito e tentacular,
agora não podes escapar…
Activa o tradutor, o autocorrector, não tens essas funções?
Não, seleccionaste apenas a opção “felicidade induzida”,
oh, se não conseguires trocas por “besbilhotice em linha”.

Mais um passo: discrimina quem é o teu pai,
a tua mãe, os teus irmãos,
tios, primos, primas …mas não primas
aí que desactivas a publicação privada,
a não ser que queiras que a tua página
seja muito gostada.

Fase 2: Faz fotos para agora e para depois

Vá, faz fotos do teu quarto, da tua cozinha,
da tua última tatuagem, do piercing na língua
ao espelho da casa de banho, da tua gata
– ah, o Grande Livro dos Rostos adora gatos! –
Faz uma lista das tuas namoradas, namorados ou ambos,
com que sais, com quem comes, quem comes,
quem amas e desamas, quem mamas e desmamas.

Faz mais uma foto de ti e publica já aqui
as imagens do passeio com o teu cão,
faz uma selfie da tua torrada e do teu galão,
do metro cheio de gente e diz algo inteligente
tipo: “Está ali um gajo parecido com o Obama”
e espera o teu quarto de hora de fama,
a chuva de gostos azuiiiiiiiis, corações a voar
e polegares em riste. Já viste?
Vale tudo para ser “gostado”,
“laica-me”, gosta-me, like me, like me,
faz como eu, faz como todos para gostarem de ti,
gosta de mim ou faz como eu?, é a mesma coisa.

Faz uma selfie de biquini e dos teus cabelos dourados,
dos teus pernis e músculos lubrificados,
da tua moto, do teu carro, do teu smartphone,
o grande livro é o teu novo megafone,
o grande livro é melhor que a tv,
é a janela para o teu mundo que ninguém vê,
(que ninguém via!), mas fugiste à apatia
electrónica e penetraste na rede social
e estás nos escaparates do mundo.
É indiscreto, é imundo?
Não! É inclusivo e global,
aproxima e contrai o planeta.

Queres mais um gosto, mais um miminho,
faz outro beijo com biquinho,
faz um gif, faz um meme
e pergunta à rede “quem quer-me?”.
Tens novos seios,
posta-os já, não são feios,
mas sem mamilos, utiliza os filtros,
senão o terrível lápis azul do censor
rasura-te do mural sem direito a estertor.

Publica apenas mamas não humanas,
os mamilos surpreendem, ofendem
o administrador, que ordena logo repressor:
três dias de restrição sem direito a publicação.

Vá, sê obediente, apaga a tua mente
e confia no grande livro amigo.
Olha, que lindo que estás, que boazona que és,
vais ver quantos likes vais angariar,
as pessoas vão adorar, melhor, vão gostar
de ti e do que fazes e do que pensas,
é tão importante como respirar.

As fotos caem na net, em cascata, em enxurrada,
num dilúvio de selfies idiotas imitando a manada,
há mais fotos na grande teia mal paridas
que segundos em 108 mil milhões de vidas,
todas as que a Terra teve desde Lucy,
e todo esse milagre tecnológico multiplica-se
exponencial e alegremente via wi-fi.

Fase 3: Diz-me tudo o que és e tudo o que vês!

Vá, diz-me tudo, o Grande Livro dos Rostos
é tolerante e transparente,
omnipresente, omnisciente, benevolente,
o livro quer saber como te sentes hoje e o que pensas,
todos os teus amigos, os que te conhecem
e os que não te conhecem querem lá saber,
mas o livro pergunta-te mesmo que não queiras confiar-te
e diz-lhes tudo sobre ti, mesmo que eles não queiram ler.

Conta ao mundo inteiro tudo o que gostas, tudo o que detestas,
os livros, os filmes, as citações, as canções e os refrões,
os hóbis, os teus talentos, tendências e aspirações,
mas não os teus defeitos, o livro não gosta de páginas feias.

Não temas, revela-me os teus pensamentos, as tuas ideias,
não partilharei com ninguém, somente com os teus amigos
a bolsa e a internet, não é segredo, só não sabe quem não quer
que nesta rede és algoz e alimento,
carrasco e carne para canhão ao mesmo tempo.

O Grande Livro dos Rostos
O Grande Livro dos Gostos
quer saber tudo o que fazes
e com quem fazes e como fazes,
o livro quer saber quantas vezes fazes sexo
por dia e por semana, e também da mana.
É o amor da tua vida ou amizade colorida?
Que interessa isso, é o número a crescer
que todos queremos conhecer.
Só? Andas abaixo da média!
As pessoas bonitas e perfeitas
fazem amor muitas vezes por dia,
com desejo, paixão e mestria,
e acordam sempre penteadas,
a sorrir e nunca com mau hálito.
Vem tu também vestir o novo hábito,
adere ao grande anuário da felicidade
da nova Humanidade.

Fase 4: Facto e contrafacto

O Grande Livro dos Rostos
quer conhecer as tuas emoções
do momento, deste momento, de agora,
vá, deixa o que estás a fazer ou a pensar
e acede à rede para o publicar.

Acordaste indispost’? publica um post
com um sorriso largo e artificial,
coloca a tua máscara social
ou outra qualquer, é indiferente,
vais sentir-te melhor imediatamente.

O grande livro é melhor que paracetamol,
é psicólogo catódico, ouvido mole
mas sempre cheio de empatia,
sempre presente, nunca faz frete,
vinte e quatro horas por dia
e sete dias sobre sete.

E se não quiseres mostrar quem és, também dá,
precisas de uma morada virtual em ponto.com.seilá,
uma foto roubada do Brad ou da Angelina,
podes dizer que tens copa D, um descapotável TT,
uma Alpina em vez do teu Cortina,
tudo menos a realidade, escolhe a tua verdade,
escolhe uma alternativa, faz tunning à tua vida.

Podes ser lingrinhas, baixote ou magricelas
mas se utilizares a cara de um actor das novelas
elas vão andar todas atrás de ti e nem a celulite
te vai fazer perder o apetite.

Podes ser casada, obesa, feiosa, fanhosa, sem dentes,
mas terás, prometo, centenas de pretendentes
que seguirão as fotos falsas da tua bunda refeita
e da tua inteligência rarefeita.

Mas atenção, cuidado com a sobre-exposição,
o censor do livro não gosta de vulvas nem de falos,
há que escondê-los, amordaçá-los,
mas um recém-nascido a ser espancado
um animal a ser torturado,
ou uma adolescente embriagada
prestes a ser violada,
isso não conta para nada
e será cem vezes partilhado.

O censor dita e tu obedeces,
para acederes à celebridade
ou simplesmente para te sentires aceite,
a fama já não é os 15 minutos do Warhol,
é uma mensagem partilhada sem controle,
milhares de vezes. Até ao next big thing,
ah, sorry, até ao next irrelevant thing,
no dia seguinte ninguém saberá quem és
mesmo se te viram a perderes os três,
mas o grande livro ganhou
mais uma página e nada mudou,
pode vender a tua vida às estatísticas, aos accionistas,
aos especulacionistas e aos grandes retalhistas.

No grande livro podes ser quem quiseres,
podes teres muitos rostos, muitos quereres,
faz Enter outra vez, cria um novo perfil
neste maravilhoso mundo anil,
já podes impunemente e sem espinha
dizer mal da vaca da vizinha
ou do marido da tua ex-amante,
já podes assediar anonimamente
o garoto gordo, a miúda deficiente.
Vai e multiplica-te a toda a hora,
prolifera prolixo por essa rede afora,
cria desaforos e choros,
ateia fogueiras, autos-da-fé,
lança labaredas, linchagens, venenos,
limpa o mundo sujo onde ninguém é inocente
e tu és a mão cega da justiça tão somente.

Podes dizer que te chamas Honey
mas morares em Bamako, Lagos ou Tambov
para aos solitários da rede sacares money, money
e perpetrares com sucesso a burla 419.

O grande livro reproduz apenas os nossos dilemas,
é o fiel espelho do que pior temos,
e para conseguir sexo, dinheiro e poder
vale tudo o que o grande livro deixar e quiser.

Pensas que o Grande Livro dos Rostos alimenta o teu ego,
mas o alimento és tu e continuas cego,
e quem te o diz mesmo sem ter rosto
é o teu querido administrador. Fazes-me um gosto?

JLC16012018