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Denis Mukwege, o homem que reconstrói mulheres que foram usadas como armas de guerra

Eu fui violada. Os meus pais mandaram-me ir à procura de mandioca nos campos. Eles apanharam-me de surpresa e atiraram-me ao chão. Despiram-me e violaram-me. Eram dois. Quando o primeiro acabou de me violar, o outro veio logo a seguir. Depois foram embora. Eu não sei o que é que eles destruíram, mas aqui, na parte vaginal, ainda me dói. Eu não sei se é uma ferida ou se é SIDA, mas o peito e as ancas doem-me. Eu sinto-me mal”. Estas palavras poderiam ter sido proferidas em qualquer local do mundo, mas vieram de uma criança, da República Democrática do Congo (RDC), no início do documentário “O homem que repara as mulheres”.

A RDC já foi uma colónia belga, apetecível pelas suas riquezas minerais. Com a independência de 1960, a sua história tem sido marcada por mortes, corrupção e uma musculada organização militar. Em 1965 o nome do país é mudado para Zaire, sob a influência da ainda União Soviética que pouco ou nada serviu para o combate à corrupção naquele país africano.

Em 1996 começa a guerra desta república africana com o Ruanda e em 1997 o Ruanda invade o Zaire (em 1994, o Ruanda já tinha sido responsável por um dos maiores genocídios de sempre). Nesse mesmo ano, o Zaire vê a sua capital capturada e um novo ditador muda novamente o nome do país para RDC. A segunda guerra da RDC contra o Ruanda tem início em 1998, o que me leva a crer que, na verdade, a guerra foi sempre a mesma. Com quase quatro milhões de mortes e milhares de deslocados, é assinado um acordo de paz no verão de 2003.

Mas esta era uma paz podre e, até 2008, por cada mês que passava, mais de 45 mil pessoas eram mortas à custa deste conflito. As mulheres congolesas, nesta altura, foram as que mais sofreram com as atrocidades sexuais, incesto forçado e até canibalismo, como refere o The Washington Post de 31 de Julho de 2007. A violência sexual no Congo vai “muito além da violação”, diz-nos Yakin Erturk, uma perita da ONU.

Este contexto que vos descrevi serve para nos enquadrarmos numa África Central que, entre 1998 e 2008 (oficialmente o conflito terminou em 2003), viveu (vive?) uma guerra étnica, de poder e de controlo de riquezas. Este conflito envolveu oito países africanos, 25 grupos armados e fez do corpo das mulheres uma arma de guerra.

Segundo dados das Nações Unidas, até Outubro deste ano, cerca de 200 mil mulheres sofreram de violação sexual no RDC. “Elas são como um lenço rasgado: é preciso pegar os fios e costurá-los novamente um por um”. É assim que Denis Mukwege descreve as condições físicas e psicológicas das mulheres que ele cuida. E conclui: “Não sei quantas vezes, observando-as nos seus leitos de dor, desesperei e perguntei: ‘Como poderão se recuperar?’. E, a cada vez, surpreendo-me e descubro que elas se erguem de novo, não por si, mas pelas suas famílias e pelos seus filhos.”

No Hospital Panzi, fundado por este médico congolês, em Bakavu (uma cidade na fronteira com o Ruanda), Mukwege e a sua equipa já ajudaram mais de 50 mil mulheres. Normalmente opera dez pessoas por dia, desde meninas até mulheres de 80 anos. Ele não é apenas “O homem que reconstrói as mulheres”, mas aquele que lhes dá esperança. “Eu não podia ficar de braços cruzados, pois a guerra não era só no campo de batalha, mas também no corpo das mulheres”.

Mukwege tem sido fundamental não só no tratamento de milhares de mulheres que são diariamente vítimas de violência sexual, mas também na defesa dos direitos das mulheres. Em Outubro de 2012 sobreviveu a uma tentativa de homicídio, após ter assumido, num discurso crítico nas Nações Unidas, a sua posição em relação ao conflito armado no seu país. Apesar disso, e sob ameaça de morte, continuou a ajudar estas mulheres desfeitas por fora e por dentro.

Por tudo isto, pela sua força de princípios e dedicação médica, o Parlamento Europeu agradeceu-lhe através do Prémio Sakharov. Na altura disse: “Eu identifico cada mulher como se fosse a minha mulher; eu identifico cada mãe violada como se fosse a minha própria mãe; cada criança, como se fosse minha”. Estas palavras revelam um sentimento de missão demonstrado num dos piores países do mundo para se ser mulher.

Este ano, o Comité Nobel Norueguês distinguiu Mukwege com o Nobel da Paz, juntamente com Nadia Murad. Antes desta distinção, já o Parlamento Europeu tinha atribuído o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, pelo trabalho de ambos em prol dos Direitos humanos, em 2014 e 2016, respectivamente. No passado dia 29 de Novembro, o médico que reconstrói as mulheres esteve reunido com vários deputados no Parlamento Europeu e falou-nos das suas preocupações e do quanto espera poder contar connosco. Em breve haverá eleições no seu país. Provavelmente pouco transparentes e credíveis. Mas a verdade é que nós somos muito pequenos perante a coragem deste homem. Nós é que precisamos dele. E esta necessidade de exemplos, vai muito além do reconhecimento do seu trabalho. A sua humildade e serenidade, perante tudo o que já viu, enche-nos a alma.

Denis Mukwege é um herói dos tempos modernos que tem lutado diariamente pelo fim da violência contra as mulheres. É uma fonte de inspiração para todos aqueles que trabalham à sua volta. A ele devemos muito e agradecer será sempre pouco. No entanto, a insuficiência de sentido nas palavras permite-me apenas sentir um profundo e indizível sentimento: obrigada por salvares milhares de raparigas e mulheres. Obrigado, Denis Mukwege.