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As notícias de guerra e as repercussões na saúde mental

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Porquê a revolta?

Primeiro, é questionável refletir o que leva o ser humano a revoltar-se contra o mundo externo, para poder sentir poder sobre ele. O que leva a gerar pânico, destruição e sofrimento. Tal como acontece no bullying, o sujeito que pratica bullying (agressor) vive numa revolta e sofrimento com o seu próprio self, muitas vezes devido a más experiências familiares baseadas na “falta”, e existe nele a necessidade de se vingar perante o exterior e perante quem o rodeia, na procura de reconhecimento (Fante,2005). Quando falamos de falta, não é falta de bens materiais, de algo palpável, é de afeto, é de acolhimento e suporte.

Quais as consequências?

Perante um cenário de sofrimento, mesmo que não sejamos nós diretamente a vivenciá-lo, presenciamos de forma indireta e absorvemos aquilo que observamos. Ou seja, quanto mais atentos a estas notícias, mais absorvemos, e neste sentido é normal que comecemos a ficar ansiosos e a imaginar “ e se acontece connosco?” “ E se fossemos nós?”. 

Estes pensamentos podem desenvolver-se numa dimensão de fazer com que a pessoa para além da ansiedade, desenvolva medo, desmotivação pela vida, questionar o que faz ou não sentido porque de um momento para o outro tudo pode mudar. Não podemos nem devemos fugir à realidade nem às evidências, pois isso seria criar uma realidade particular ou entrar em negação. Ligamos a televisão em qualquer canal e deparamo-nos com estas notícias com imagens agressivas e traumáticas. Lidamos constantemente com a incerteza, seja do nosso dia a dia, em relação ao trabalho, em relação à família e relacionamentos, pois afinal, tudo pode mudar mesmo sem termos controlo sobre isso. 

Como lidar da melhor forma?

Todos temos medos, receios e inseguranças, que pioram quando se torna algo real e onde a nossa noção de poder sobre ela é quase inexistente, ou pensamos nós que é, porque podemos sempre fazer a nossa parte perante todo esse contexto.

Poderemos ser aquele que acolhe e ajuda o outro, como gostaríamos de ser ajudados e apoiados, devemos aprender a saber gerir aquilo que devemos saber e estar informados, daquilo que em exagero e excesso nos começa a prejudicar no nosso dia a dia, não é egoísmo, é protecção. Limitar o tempo de notícias sobre guerra, é fundamental.

De nada irá resolver deixarmos a nossa vida para trás, sem perspetiva de futuro se nos deixarmos levar pelo negativismo e perspectivas negativas. O resultado será sempre continuar sem controlo sobre a situação, a maior desmotivação cíclica por já não te sentires capaz de sonhar, ou de não realizar os teus objetivos. 

Num contexto de guerra, existem sempre os dois lados, e existe também o apoio que poderemos prestar ao outro e também existe a esperança. E é nessa margem que deves pensar que tudo continua, independentemente do contexto, mesmo que abrandes, não pares e não desistas de ti, e quando achares que sozinho este raciocínio já não é possível de ser feito, pede ajuda a nível psicológico. 

A psicoterapia ajuda-nos não só a lidar com o que se passa à nossa volta, como principalmente o que se passa dentro de nós, que influencia tudo o resto. 

A resiliência e a nossa capacidade de lidar da melhor forma com o que nos rodeia está inteiramente ligada àquilo que somos, à forma como vemos o mundo e à nossa história de desenvolvimento. Se nos demonstraram que o mundo é um lugar perigoso, é bem provável que lidemos da pior forma com tudo aquilo que realmente é mais assustador. 

Por outro lado, e não esquecendo sempre o mais básico porque ele também deve ser referido, devemos manter o autocuidado, seja ele físico ou mental, manter as nossas rotinas que nos fazem sentir mais leves, manter contacto com amigos, sem sentimento de culpa, porque de facto, de nada vale nós próprios desistirmos de nós, faremos a diferença pois é na diferença que está a esperança.

Andreia Filipe Vieira 

Psicóloga 

Referências: Fante, Cleo. (2005). Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas: Verus.  

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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