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As aventuras de um emigrante

Tanto podem fazer trabalhos básicos, como terem altos cargos executivos, se quando regressam parecem autênticos homens e mulheres com dez/vinte anos de atraso, quer de educação quer de comportamento cívico.

Porque me fica bastante caro alugar carro sempre que vou a Portugal de férias ou apenas para tratar de assuntos pessoais, decidi comprar um carro em segunda mão.

A pessoa que me vendeu o carro alertou-me desde logo que eu tinha de o levar à inspeção: “Mas o carro tá muito bom, – assegurou-me – não tem problemas e passa na inspeção de certeza.”

Como eu sou emigrante, não importa se faço trabalhos básicos ou altos cargos executivos em terras de sua majestade, estou, segundo afirmações de algumas pessoas, com dez a vinte anos de atraso em relação aos meus conterrâneos que se deixaram ficar por terras lusas, e por esse motivo eu não sabia que para o veículo passar na inspeção bastava que eu me esquecesse de uma nota de 20 euros algures pela caixa de velocidades. Como não esqueci… o carro não passou.

Como qualquer outro emigrante fico sempre excitadíssimo quando vou a Portugal. É o meu país, o meu povo, a minha casa, os meus costumes, os meu hábitos, que desde que emigrei se tornaram ao que parece, barulhentos e incomodativos, mas nem por isso, eu, com os tais dez a vinte anos de atraso, deixei de amar este país que me viu nascer.

Nunca levo um carro personalizado, seja lá o que isso significa, porque alugo sempre, e apesar de me ficar bastante caro, é mais cómodo. Fica-me bastante caro especialmente se o alugo em Agosto, mas isso, em Agosto tudo é muito mais caro. Será quase como que um cartão de boas vindas aos emigrantes que não têm vida própria nos países de onde vem, mesmo que, nesses países se cumpra à risca as leis e os direitos de cada cidadão que faz parte da população ativa que movimenta a economia desses países. A única diferença entre o meu querido país e os países para onde emigraram muitos portugueses é que no nosso querido Portugal se faz muita batota com as leis…

Quando fui devolver o carro, estacionei-o de frente à casa da pessoa que mo vendeu, que por sinal é um amigo. Tive que atravessar a estrada para lhe entregar as chaves, e quanto às explicações já haviam sido feitas pelo telefone. Foi de facto nessa altura que ele disse, “Carago, homem de Deus, se fosse eu a levar o carro ele tinha passado.” E depois lá me explicou o truque dos 20 euros algures pela “moca” das velocidades. Eu, que sou atrasado dez a vinte anos, estava mais preocupado com a segurança do veículo do que com o facto de resolver o problema da inspeção do mesmo.

Foi uma aventura para atravessar a estrada para o outro lado, mesmo que eu tivesse à minha frente uma passadeira para peões. Nos países atrasadinhos como aquele onde eu passo quase o ano todo a viver e a trabalhar, os carros param sempre que um peão mete o pé na passadeira. De facto, param mesmo antes disso. Mas em terras lusas, a constatar por aquilo que tenho apreciado em muitas situações que não só a daquele dia em que eu tentava atravessar a passadeira, estas listas pintadas no chão parecem não passar de uma zebra espalmada sem cabeça e sem rabo, e talvez por esse motivo, qualquer peão que tenha a ousadia de pensar que por esse facto tem prioridade sobre os veículos, sujeita-se a ser passado a ferro tendo como destino o mesmo timbre espalmado na estrada, que teve a tal dita zebra.

Resolvido o problema, ou seja, em nome da boa amizade que tenho com a pessoa que mo vendeu, devolvi-lhe o carro, ele devolveu-me o dinheiro, e até hoje continuo a não ter certezas de ele ter percebido o meu dilema que consistia na minha preocupação com a segurança do carro em vez do mesmo andar pelas estradas a representar um risco eminente que pode pôr em perigo de vida, não só a pessoa que o conduza, bem como a pessoa, ou as pessoas, que o tenham que parar com o próprio corpo.

Para mostrar que não haviam ficado ressentimentos que pudessem de alguma maneira manchar ou danificar a nossa boa amizade, fomos, por indicação do casal amigo, almoçar a uma tasquinha algures quase no meio do nada, mas onde se come muitíssimo bem e em conta.

Se a comida era divinal, a bebida não lhe ficava nada atrás. De facto, era a combinação mais do que perfeita.

Como se costuma dizer, comemos bem e bebemos melhor. Quem me conhece sabe que eu não sou pessoa de beber muito. Mas se, como se diz, a ocasião faz o ladrão, a ocasião também pode fazer o borrachão. Veja-se. Boa comida, bom vinho, férias, confraternização, amizade, e quando se vai a ver…já se passou das marcas. Aqui é quando entra o bom senso e a responsabilidade. Aliás, é de facto antes de chegarmos aqui. Por isso, e como o meu amigo mesmo contra os meus protestos que nem eram assim muito veementes, continuava a encher o meu copo, a minha querida esposa, sabendo que seria ela a conduzir o carro de volta a casa, não passou de meio copo de vinho, mesmo contra as insistências do meu amigo, que, isso eu percebi desde logo, estava apenas a mostrar a sua amabilidade, mas acima de tudo a amizade.

Acabado o almoço, que foi longo e em muitas ocasiões jocoso, estava na hora de cada casal seguir o seu caminho. Para qualquer um de nós, uns bons quilómetros até chegar a casa. Essa a razão pela qual a mirífica situação que se passaria a seguir me deixou com sérias dúvidas na exatidão do tal atraso de dez a vinte anos que nós os emigrantes temos em relação aos nossos conterrâneos. O meu amigo, apesar de ter bebido mais do que a sua conta assim o permitisse, (percebia-se pelos perdigotos que soltava boca fora sempre que falava, pela voz arrastada e as palavras que jorrava aos tropeções, difíceis de se perceberem, já para não falar das vezes em que chorou sem razão aparente,) saltou para o volante e arrancou sem dar cavaco aos meus cuidados em lhe fazer perceber que ele não estava em condições de conduzir. Riu-se, olhou-me como se eu não estivesse a dizer coisa com coisa, e à medida que alongava a primeira mudança carregando no acelerador até que esta quase rebentasse antes de passar para a segunda, antes de desaparecer de maneira barulhenta na nuvem de fumo que o escape deixou ficar a pairar no ar até se esfumar, ainda me disse, “Você não tá bom da cabeça. Ó homem de Deus, eu estou bem. Ainda bubia mais…”

E eu, que tinha bebido também a minha conta, fiquei de ar pensativo a tentar arranjar uma explicação para o sucedido. Digamos, uma espécie de teoria. E pensei…bem, das quatro garrafas que vieram para a mesa, eu bebi cerca de dois copos, okay… talvez três, a minha querida esposa cerca de meio, a esposa do meu amigo pouco mais de meio… e o resto evaporou-se pela sua garganta abaixo. No fim do almoço pedimos “um cafezinho”, e o meu amigo, com o café pediu um cheirinho. Pense melhor quem achar que o tasqueiro lhe trouxe um frasco de perfume junto com o café. Não fazia sentido. Por isso, e porque pelos vistos o meu amigo é um bom cliente da casa, trouxe a garrafa de aguardente que deixou ficar na mesa para que o meu amigo se servisse à sua vontade. Pensei, bem…se ele mesmo afirma que ainda “bubia” mais…talvez tenha engolido uma esponja em qualquer altura da sua vida.

Infelizmente, o meu amigo representa muitos dos condutores do meu país no dia a dia, que bebem mais do que a conta e acreditam que estão perfeitamente bem para continuar a conduzir. Mas isto são pensamentos meus que estou atrasado cerca de dez a vinte anos quer em educação quer em comportamentos cívicos.

Esta frase, isto para não tecer comentários fragosos, sou obrigado a entendê-la como que uma maneira de disfarçar um certo patriotismo que, no contexto da mesma, vai contra a razão do seu significado. Também poderia usar uma frase, com menos requinte é certo, mas que poderia, se não definir, pelo menos explicar o sentido que a afirmação de quem a fez, assim o pretendia e que é, “chama-lhe p…ta antes que ela te chame a ti.”

Enfie a carapuça a quem a mesma servir.

No dia a seguir ao almoço com o casal amigo, saí com os meus três filhos e a minha esposa e fomos tomar café. Os rapazes a dado momento entreolharam-se para logo de seguida poisarem os olhos quase simultaneamente em mim. Percebi. Cheirou-me. Ou seja, o fumo do tabaco chegou-me ao nariz e isso complementou o ar admiradíssimo e ao mesmo tempo incomodado, dos rapazes, porque na esplanada onde nos sentamos, mesmo na mesa contigua à nossa, duas das três pessoas que lá se sentaram estavam a fumar.

Estive mesmo perto de perguntar-lhes se o meu café não estaria porventura a incomodar o cigarro deles, mas isso, convenhamos, só iria mostrar e confirmar o tal atraso de dez a vinte anos. Neste caso, qualquer número entre o dez e o vinte serviria muito bem.

Para não incomodar ou aborrecer ninguém com a minha falta de hábitos, convenci a família a terminarmos o café dentro do estabelecimento. Acabamos por nos ir embora porque dentro do café também se fumava. Os rapazes ficaram escandalizados. Não tive palavras que lhes explicasse, ou pelo menos que os convencesse que em alguns estabelecimentos em Portugal se fuma, como se fazia à dez anos em Inglaterra. Disse-lhes apenas que havia um atraso de pelo menos dez anos, só não lhes disse de quem. Como sei bem que os meus filhos são inteligentes, também sei que eram desnecessárias outras explicações.

Com uma espécie de sentimento de frustração saímos do café e por decisão unânime decidimos dar um passeio até à cidade berço.

Quem conhece o trajeto entre Felgueiras e Guimarães sabe bem que a estrada é cheia de curvas e contracurvas.

Tal como o simples ato de atravessar a rua numa passadeira para peões, para quem já não está habituado a conduzir em Portugal, quem já não sofre da impaciência e da constante pressa dos condutores portugueses, ou seja, para quem finalmente aprendeu algumas maneiras cívicas na estrada, os cerca de 17 quilómetros que separam as duas cidades pode ser também uma aventura, mas uma aventura nada agradável.

Logo após ter passado a área do Ramalhal, para quem não conhece a zona, cerca de 2 kms depois de ter deixado Felgueiras, deparo-me com um condutor a quem normalmente se chama “condutor domingueiro” por este conduzir devagar e despreocupadamente. Está, no entanto, no seu direito, e por isso mantive-me pacientemente a seguir a sua cauda sem atentar uma ultrapassagem pois o espaço de uma curva à outra representa sempre um perigo.

A mesma paciência não tinham alguns dos condutores que iam surgindo por detrás de mim. Num ato que só pode ser considerado louco, irresponsável, perigoso, depois de algum tempo de profunda e enervante pressão, uma ultrapassagem, às vezes mesmo em cima da curva, e para mostrarem que não estavam nada satisfeitos pela impaciência a que haviam sido submetidos, o braço de fora da janela, o punho fechado e o dedo do meio bem hirto a mostrar o desagrado.

Para disfarçar a pressão e o stress a que fui submetido nesta curta viagem que deveria ser supostamente um passeio agradável, lá fui dizendo à família que se pensássemos bem a culpa até seria nossa pois não temos a mesma habilidade destes condutores ágeis e cheios de coragem, e isso, talvez se deva ao facto de estarmos atrasados dez/vinte anos em relação a eles. Coitados que têm que aguentar estes emigrantes tão cheios de cuidados desnecessários, tão parcos de maneiras cívicas e de educação…

Excesso de velocidade, pressão no condutor da frente, ultrapassagens em cima das curvas, manobras perigosas, parece ser um hábito, mau, de muitos condutores nas estradas portuguesas. Por algum motivo os números drásticos de acidentes e mortes é elevadíssimo. Por isso, deixem-se de merdas, porque um bom condutor não é aquele que conduz com muita velocidade, mas sim aquele que conduz em consciência, não só pela sua vida como pela vida dos outros.

À noite quando me sentei na varanda de casa a conversar com a minha querida esposa, os mesmos três solitários que temos vindo a testemunhar quase todas as noites nestes dias de férias que se referem à época destes acontecimentos, passavam a rua, em fila indiana, cansados, famintos provavelmente, mal tratados com certeza, taciturnos, à procura de nada, poiso talvez. Poiso onde possam descansar o corpo canino abandonado.

É incrível o número de animais, especialmente cães e gatos, diria que, mais cães, abandonados em Portugal. Muitas vezes, os desgraçados, como se já não bastasse a sua vida literalmente de cão, ainda são escorraçados à pedrada, sem razão que justifique tal ato de cobardia a não ser uma crueldade de uns quantos inhenhos que nem sequer sabem distinguir a verdadeira lealdade e a fidelidade do mais puro que se possa esperar e que vem precisamente do cão.

O texto vai longo, e a mensagem se se perdeu entre parágrafos, poder-se-ia resumir a este parágrafo que se segue…

Todos os emigrantes que saem do conforto da sua terra e das suas famílias e amigos e se aventuram a iniciar uma nova vida num outro país, conhecendo uma nova cultura, novos povos, novos hábitos, outros mundos, como raio podem estar atrasados em relação a quem fica no mesmo lugar, acomodado aos mesmos velhos e maus hábitos de sempre?

Como dizia o grande filósofo português, Agostinho da Silva… deixem-se de merdas.