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A morte é uma amante cruel

A minha amante. Desejei-a tanto. Ao fim de muitos dias, ela cedeu. Finalmente. Trouxe-a até este quarto. Veio, dócil, pela minha mão. A luz que penetrava pela janela recortava-lhe a silhueta perfeita. Deixou cair o vestido, pudicamente, pelo corpo abaixo. Revelou-me os seios redondos, belos, quase demasiado perfeitos, os ombros nus, o delta do sexo aparado, os pêlos, os poros, as rugas, as linhas da pele, as nódoas negras, as cicatrizes, as feridas das balas, o local e a história dos vestígios de fracturas, toda a geografia do seu corpo exposto.

– Não chores, não sou uma vítima, sou uma predadora!, confessou.

Falou-me dos seus 137 assassinatos nos últimos 24 dias. Por encomenda, por dívida, por crime político, por droga, por diversão, por bebedeira, por estrabismo etílico, por engano, por enforcamento, afogamento, envenenamento, esfaqueamento, com beretta, colt, revólver, walter, à queima-roupa, com silenciador, carabina, winchester, espingarda, com objectiva, punhal, corda de pesca, electrocução, explosão, carro armadilhado…

Deu uns passos na minha direcção. Baixou os olhos, acendeu um cigarro, suspendeu-o aos lábios finos, carmim desbotados, e prometeu-me, em voz serena, como se fosse um acto de contrição:

– Amo-te! Se te matar, hás-de ser o meu último!

O copo de uísque permanecia intocado na cómoda velha do quarto 813 quando a pequena morte inundou as veias de todo o meu sangue.

JLC14092006