De que está à procura ?

reinounido
Lisboa
Porto
Londres, Reino Unido
Colunistas

Ser doutor

De longe a longe, deparamos com a triste notícia, que este ou aquele político ou figura pública, inclui, no currículo, habilitações que não possui.

A descoberta é recebida com júbilo pelos inimigos (que se dizem antagonistas) e comentada com condescendência pelos “amigos”

Tal sucede, porque se dá mais valor ao diploma do que ao verdadeiro saber.

Quando realizei série de entrevistas a figuras notáveis, jovem deputado revelou-me que resolveu ingressar na Universidade porque para ser escutado e reconhecida a competência, era preciso obter o título de “ doutor”!

Não é novidade. Erasmo dizia que teve que ir a Roma, para que seus conhecimentos (talento?) fossem reconhecidos.

Há anos, o jornalista da RTP, João Adelino, estava a coordenar um debate político. Um recusou participar porque não o tinha tratado por “Sr. Doutor”!

Conclui João Adelino, na crónica que escreveu no “JN” de 14-04-2012: “não há convidado na televisão que não seja apelidado invariavelmente de “doutor” ou “engenheiro”.

Não admira, portanto, que quando não se possui diploma, se busque um “canudo”; os meios justificam o fim…

Poucos sabem avaliar com justiça. A maioria, avalia pelo grau académico, cor política, e ainda pelo parecer de comentadores e críticos.

Certa ocasião, famoso jurista portuense perguntou a meu pai que curso possuía. Sua mulher, formada em Letras, era admiradora das crónicas que publicava no matutino “O Comércio do Porto”.

Como lhe dissesse que frequentara “apenas” as Belas Artes, rematou deste modo:

– “Continue…Continue… Tem muito jeito para a escrita!”

Meu pai foi apresentado, pelo Fernando Figueirinhas (da Livraria Figueirinhas) a António Lopes Ribeiro – famoso realizador de cinema e escritor de mérito, além de comentador da RTP.

Seguindo o “uso” latino, tratou-o por “doutor”, ao que o extraordinário realizador cinematográfico, respostou de imediato:

– “Sr. Pinho da Silva: Trata-me por António ou António Lopes Ribeiro. Eu tenho nome e orgulho-me dele!”

E acrescentou: “já reparou que aos grandes homens ninguém os trata por “doutor”?…

Na nossa terra, mal é de quem não é licenciado e não obteve a pró-graduação numa Universidade famosa, algures na Inglaterra ou na América…

É bacoquice nacional?!… Certamente que sim; mas tão arreigada esta que quem enriquece tem que ser forçosamente tratado por “doutor”… e “excelência“…