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Portugueses do Reino Unido: entre medos e (algumas) incertezas

Podem estar quase meio milhão de portugueses no Reino Unido mas na segurança social estão inscritas 300 mil pessoas – só que este número não inclui, por exemplo, filhos menores, reformados que vieram de Portugal juntar-se aos filhos e outras pessoas impedidas de trabalhar, dependentes das famílias, que nunca pediram número fiscal, explica o jornal Expresso.

João Noronha, jornalista, vive em Thetford, uma pequena vila em Norfolk, no centro-leste de Inglaterra, onde o rácio de portugueses em relação ao resto da população torna esta a localidade mais portuguesa do país. Garante que estão a chegar mais pessoas todos os dias, e não só a Thetford como também a Manchester, a Edimburgo e ao sul do país. “Estão a chegar mais pessoas, é um erro pensarmos que as pessoas deixaram de emigrar e que a situação em Portugal está melhor ao ponto de poder satisfazer toda a gente. Estamos a receber um número inédito de novos emigrantes”.

Apesar do Brexit os subsídios não serão retirados às pessoas que, por exemplo, vivem de ajudas por estarem impossibilitados de trabalhar, que era um dos principais medos. Os portugueses também não serão impedidos de trabalhar seja em que sector for, podemos entrar e sair à vontade e também nos foi dito que o processo de inscrição para termos cartão de residência será mais simples.

Esse processo simplificado tem sido uma das maiores lutas dos emigrantes europeus porque o primeiro documento que o Ministério da Administração Interna britânico disponibilizou para que as pessoas pedissem a residência era um calvário de 85 páginas que obrigava as pessoas a apresentar provas de que tinham descontado para o Estado durante pelo menos cinco anos. Ora agora, segundo garantiu o secretário de Estado da Saída da União Europeia, Robin Walker, esse processo será muito mais rápido. “O que vim transmitir hoje é a certeza de que o documento comum oferece segurança e os passos que o Governo britânico está a dar para que seja convertido em lei, para que os portugueses que vivem no Reino Unido possam ter o estatuto de residente”, declarou à agência Lusa o responsável. Uma das mudanças esperadas é a possibilidade de que uma pessoa possa provar que vive no Reino Unido há pelo menos cinco anos sem ser através da apresentação de descontos, o que ajudará, por exemplo, as mães que ficam em casa a tratar dos filhos e que não trabalham a garantir que podem ficar apresentando outros documentos, como cartas ou contas emitidas em seu nome para uma morada no país ao longo desse tempo.

Conceição Ganhão, que falou à Lusa na embaixada portuguesa durante o evento de informação da comunidade portuguesa da semana passada, não ficou assim tão convencida. “Sabemos que vai haver muita gente que não vai reunir condições (para a residência) e vai ter de voltar ao seu país de origem. A pergunta sobre que apoios vão dar essas pessoas não ficou respondida”, disse a dirigente da PT Connections, uma associação que ajuda imigrantes.

Carlos Ribeiro tem “várias famílias” dependentes de si, direta ou indiretamente. Como um dos sócios da Portobras, uma das maiores empresas de importação de produtos alimentares portugueses e brasileiros para o Reino Unido, emprega mais de 100 pessoas e quase todas já se dirigiram a ele com perguntas sobre o futuro. “Chegam aqui muitos casais novos para trabalhar, a mulher começa por ficar em casa com os filhos, ou porque ainda não conseguiu emprego, e então os meus colaboradores vêm perguntar-me se há problema, se elas terão de ir embora por não conseguirem residência. Há imensas dúvidas e tudo é especulação. Ora isso não ajuda nada as pessoas a sentirem-se seguras”, diz o empresário ao Expresso a partir de Londres. “Hoje fomos falar com membros do governo, que deveriam ter respostas oficiais mas certezas, certezas, a cem por cento, não temos. Tivemos algumas informações mais específicas e isso foi bom mas há coisas que ainda não foram respondidas.”

João Noronha ficou satisfeito com a sessão mas não se ilude. “A comunidade portuguesa, e todas as outras, terão de se reintegrar. Isto quer dizer que, quando o país sair da União Europeia, é muito possível que as leis comecem a mudar aos poucos, que deixem de ser tão permissiva. Possivelmente os subsídios não serão entregues aos estrangeiros com a facilidade de hoje, possivelmente será quase obrigatório falar o inglês para encontrar trabalho, o que não acontece hoje – qualquer europeu chega e, se quiser, pede logo ajudas sociais.”

Acabada de aterrar após a reunião com a comunidade, Kirsty Hayes, embaixadora do Reino Unido em Portugal, disse ao jornal Expresso que considerou o encontro positivo mas que “são precisos mais eventos como este” para destronar “mitos e medos injustificados” que ainda se encontram nas comunidades de migrantes porque “a informação sobre os mais recentes desenvolvimentos nas negociações entre o Reino Unido e a União Europeia ainda é baixa”.