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Oscar Araripe e suas múltiplas faces de artista

Pintor que tem merecido atenção de grandes críticos brasileiros e estrangeiros, com obras expostas em vários cantos do mundo. Romancista cuja obra mereceu estudos críticos de nomes como Antônio Houaiss e Eduardo Portella.

Jornalista de alguns dos mais importantes veículos da imprensa brasileira nos anos 60, como Correio da Manhã e Jornal do Brasil, nos quais atuou no jornalismo cultural, Oscar Araripe foi também fundador do Arte e Educação, primeiro veículo de imprensa sobre arte e educação em nosso país.

Radicado há mais de 20 anos na histórica cidade de Tiradentes, em Minas Gerais, sede da fundação que leva seu nome, faz, nesta entrevista, uma retrospectiva de sua rica experiência profissional e artística, ao longo de quase seis décadas.

Conte um pouco sobre sua formação acadêmica e os anos de atuação como jornalista, no Rio?

Eu me formei em Direito, pela Faculdade Nacional de Direito, em 1968. Eleito para o CACO, o Centro Acadêmico da FND, fui cassado e perseguido pela ditadura militar e militei na Ação Popular ( AP).Punido três vezes pelo regime de exceção, fui anistiado pelo Governo brasileiro em 2011. Na imprensa, fui um jornalista cultural. Crítico de teatro do Correio da Manhã, exerci a atividade por três anos. Trabalhei ainda no Jornal do Brasil, procurando sempre uma protagonização cultural. Conheci Augusto Rodrigues, quando lancei em seu atelier o meu livro sobre a China, que foi o primeiro sobre o assunto, depois do estabelecimento de relações diplomáticas Brasil/China. Augusto me convidou para editar o Arte e Educação, o primeiro jornal no Brasil sobre o assunto. Junto com ele, assinei a Ata de Fundação da Sociedade Internacional de Educação através da Arte (INSEA).

A que se deveu sua militância política, sobretudo sua participação na Ação Popular, nos anos 60? O que ficou desse período? Valeu a pena? Ainda considera-se marxista?

Naqueles tempos ou você militava contra a ditadura ou virava um cretino, na melhor das hipóteses. A Ação Popular era o que existia de melhor no campo da resistência à ditadura. Claro que valeu muito a pena, até porque se eu sou algum ismo hoje é o pessoalismo, um sistema de idéias e práticas que desenvolvi artisticamente e filosoficamente, a partir do personalismo da AP. Somos todos marxistas, mas não marxólogos, o que é lamentável. Se nos permitissem saber mais sobre Marx, com certeza seríamos todos comunistas, a caminho do anarquismo.

Como foi visitar a China de Mao Tsé Tung e escrever um livro sobre aquele país?

Foi maravilhoso! Não se tem uma idéia planetária sem se conhecer a China. A China do Mao era a China dos camponeses e de Madame Xian-Xing. O preconceito e o oportunismo ocidentais impedem que se conheça a verdadeira face da China. No livro eu procurei situá-la no plano do sensível, muito mais do que no econômico ou político. O que é mais extraordinário na China é o esforço humano. É um povo muito criativo, polido, pacífico. Aguardo a China que virá depois da riqueza.

E o período de estudos nos Estados Unidos e na Itália, nos anos 60?

Foi fundamental na minha formação. Nos Estados Unidos, no Fogg Museum, em Harvard, vi pela primeira vez, ao vivo, alguns dos grandes mestres da pintura. Não Itália, aprendi a dolce vita da contestação. Lá solidifiquei minha cultura teatral, entre outras.

Enveredar pela literatura e pelo teatro foi um desdobramento de sua atividade como jornalista na área cultural?

Não, foi o contrário. Minha literatura e meu gosto pelo teatro me levaram à imprensa cultural.
A pintura, em que momento surgiu? Que influências foram mais decisivas em seu trabalho como pintor?
Sempre fui pintor, mas é muito difícil ser pintor na juventude. A pintura exige uma maturidade, uma pessoalidade já bem firme. Todos me influenciaram e ninguém me influenciou, já que sou autodidata até onde se pode ser. Já gostei de muitos pintores que hoje somente admiro. A ter que citar algum e alguma tela eu diria: O Embarque para Cítara, de Watteau.

Pode nos contar um pouco das inovações técnicas que sua pintura revelou, nos anos 80?

Meu autodidatismo levou-me a descobrir a vela náutica como suporte para a pintura. Toda a minha obra de pintura foi e está sendo construída nela. O surpreendente não é que eu tenha descoberto uma nova tela para a pintura, com as qualidades que o poliéster tem, técnicas e estéticas, mas sim que seja o único no mundo (creio) que pinta nela, depois de trinta e tantos anos.

Trocar o Rio por Minas foi simples opção ou necessidade?

Um carioca, quando muda para Minas, é porque vem fugido. Cheguei aqui fugido da ditadura. No dia em que a ditadura acabar, se eu ainda estiver vivo, volto para o Rio. Mas, eu amo Minas, sou cidadão honorário de algumas cidades mineiras, minha mulher é mineira, tenho três filhos mineiros e estou na cultura mineira. Costumo dizer, bem mineiramente, que só não sou mineiro porque a gente não pode ser o que não é.

Quais momentos de sua carreira, seja como pintor, escritor e jornalista foram mais significativos?

Como pintor, minha vida tem sido significativa todos os dias. Expor nas praças, ao ar livre, em caráter permanente (pois o poliéster, somado à técnica que desenvolvi, o permite) foi uma enorme conquista. Minha exposição Extinção Nunca Mais, no Jardim Botânico do Rio, durante a Eco 92, alcançou público estimado de dois milhões. Tempos atrás, em Cuba, expus no Parque Céspedes, para mais de 60 mil pessoas. Na Bienal de Chapingo, no México, meu mural Flores para Nezahualcoyotl foi adquirido pela universidade e lá entronizado permanentemente em seu Centro de Formação Artística, a cem metros da bela capela pintada por Diego Rivera. Também entronizei, em caráter definitivo, ao meu díptico Tiradentes, o Animoso Alferes (versão Rio) nas escadarias da Faculdade Nacional de Direito, no Rio, onde me formei e não podia sequer entrar, perseguido que fui pela ditadura. E ainda a versão Ouro Preto, do mesmo painel, no hall principal do novo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Um momento que destaco em minha vida cultural foi a instituição, com outros, da Fundação Oscar Araripe, uma entidade artística e cultural, sem fins lucrativos, sediada em Tiradentes, MG, onde moro há mais de duas décadas. Como escritor, meu livro Maria na Terra de Meus Olhos teve prefácio do Antônio Houaiss e foi o primeiro romance publicado pela Rocco. Meu livro sobre a China foi um grande sucesso editorial e de crítica. Como jornalista, creio que meus artigos e críticas no Correio da Manhã foram importantes na defesa do teatro e da literatura de valores democráticos e artísticos. Em 2011, foi publicado meu primeiro livro de arte, com 350 páginas e cerca de 400 páginas com imagens e textos com ideias acerca de minha pintura e literatura.

O que significou estar em Portugal, quando da Revolução dos Cravos?

Cheguei a Lisboa exatamente no dia 25 de abril de 1974. Convivi, diariamente, por duas semanas, com alguns dos grandes líderes da Revolução dos Cravos, pois era jornalista do Jornal do Brasil. Havia um bar, numa esquina da Avenida da Liberdade, chamado Pube (assim mesmo, com a letra e no final, se não me engano), onde era possível conversar com alguns dos líderes revoltosos, como Costa Gomes, Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Gonçalves. Neste bar, todas as noites, a imprensa, em peso, vinha para apurar as notícias. Cheguei a solicitar uma entrevista com António de Espínola, mas sem sucesso. Disseram que estava muito ocupado. E de fato estava. Já o Galvão de Melo, só conheci no Brasil, numa recepção na embaixada portuguesa, no Rio, logo depois da Revolução, quando alguns líderes vieram explicar o ocorrido. Era um tipo alegre, alto e altissonante, muito carismático. Estranhamente, estava presente o adido militar dos Estados Unidos, general Vernon Walters, célebre articulador de golpes militares contra regimes esquerdistas, que sei lá por quais cargas d’águas colou em mim por um bom tempo. Naquela época, eu era mais esperto e fingi ser um especialista em Shakespeare, discorrendo sobre os famosos sonetos do bardo, que ele, ainda que general, adorava, de fato. Mas, voltando a Portugal, um personagem mui trágico que à época conheci foi António Alçada Baptista. Fora opositor ao regime salazarista por toda a vida, contudo, alguns meses antes da queda do regime, escreveu um livro chamado Conversas com Marcello Caetano. Depois do 25 de abril, evidentemente, foi tachado de salazarista e discriminado. Uma pena, pois foi, digamos, um azar ter publicado o livro. Minha impressão, contudo, era de um intelectual sério e honesto, muito simpático. Ademais, tinha já publicado uma obra de ficção de reconhecido valor. Nestas inesquecíveis duas semanas, levado por Odylo Costa Filho, que era o adido cultural do Brasil em Portugal àquela altura, conheci ainda vários intelectuais portugueses. Destaco Jayme Cortesão, que tinha muito prestígio e ainda tem e imagino que o terá para sempre, pois é um historiador de peso, além de pessoa muito afável. Era pai da Maria da Saudade Cortesão, pessoa muito engraçada, esposa do poeta brasileiro Murilo Mendes, meu querido amigo dos tempos em que morei em Roma, nos anos 60. Também conheci o poeta Luís Fernando de Vasconcellos e Souza, que tinha duas belas quintas, uma no Alentejo, com uma fantástica coleção de carruagens antigas, e outra, em Peso da Régua, no Douro. No Alentejo, vi pela primeira vez uma cegonha e fiquei pasmo com o tamanho da ave. Recentemente, visitando a fábrica da Vista Alegre, vi cegonhas encimadas numa chaminé. Como Luis Fernando fora casado com Maria, uma das donas da Vista Alegre, concluí ter sido ele ou ela a levar as cegonhas para a fábrica, bem longe do Alentejo, às proximidades de Aveiro. Maria tinha uma casa brasonada na Alfama, com uma bela vista do Tejo e uma parede da sala exibindo uma rachadura de cima a baixo, que ela deixava sem reparo, em lembrança do terremoto de 1775. Dramático, mas belo. Luis Fernando merecia, in memoriam, a Medalha da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Explico: no alvoroço e espanto da Revolução, algumas pessoas queriam tirar as jóias do país, com medo de que fossem confiscadas. Havia um jornalista meio monárquico, que se dispunha a fazer o serviço, pois os jornalistas tinham passe livre nos aeroportos. Questionado se queria usufruir desses serviços, Luís Fernando, de pronto, rechaçou a idéia, dizendo que como português jamais tiraria uma riqueza de seu país. Um belo e inesquecível gesto, leal e patriótico. Por fim, não posso deixar de citar também ter conhecido um grupo de autores portugueses que amava a literatura, todos muito pobres, quase anônimos, mas profundamente dedicados ao ofício. Ernesto Leal, dramaturgo, é o nome de um deles, que me lembro, por não poder citar a todos.

Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.