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“O prisioneiro do céu” de Carlos Ruiz Zafón

Ficha técnica

Título – O prisioneiro do céu

Autor – Carlos Ruiz Zafón

Editora – Planeta Manuscrito

Páginas – 398

Opinião

De volta às releituras e de volta à saga de “O Cemitérios dos Livros Esquecidos”. Como sabem, iniciei este ano de leituras com uma releitura que já me tentava há demasiado tempo. Reli A sombra do Vento e de novo rendi-me à sua narrativa pincelada de mistérios, de amores impossíveis, de vinganças, de personagens sublimemente (im)perfeitas como Daniel, Bea, Julián, Penélope, Nuria ou Fermín (como ri e chorei com este homem!) e de uma absoluta devoção aos livros, sobretudo àqueles que se classificam de malditos ou àqueles que jazem quase moribundos nas prateleiras da livraria Sempere e Hijos ou no labirinto mágico de um cemitério a que um punhado de afortunados vai tendo acesso. Saboreei a releitura com mais prazer do que a havia saboreado na leitura original e vi-me obrigada a rebentar a escala e dar-lhe uma classificação de 11!

Também já confessei aqui algures que pretendo fazer de 2018 um ano de muitas releituras. Irei intercalando-as com leituras novas e assim poderei satisfazer uma vontade que me persegue sempre que percorro com os olhos e os dedos as lombadas dos livros das estantes cá de casa e sinto aquele arrepiozinho bom ao deter-me num título de uma obra que há dois, três ou mais anos atrás me conquistou sem reservas. Dei azo a essa vontade logo quando o ano arrancou, com a referida releitura de A sombra do vento e a ela seguiu-se a do volume três da saga de Carlos Ruiz Zafón.

Quem conhece esta saga sabe que a mesma não necessita ser lida pela ordem cronológica de publicação. Contudo, essa não foi a razão pela qual decidi saltar do volume um para o três. A razão principal (e única) prende-se com o facto de ter lido o volume dois – O Jogo do Anjo – pouco tempo depois de ter sido publicado e ter ficado muito desiludida com ele. A aura de mistério mantém-se, continuamos em Barcelona, recuamos alguns anos em relação ao período narrado em A sombra do vento, tropeçamos em personagens conhecidas, continuamos enredados pelo amor pelos livros, mas a partir do momento em que o sobrenatural mancha a história, lá se vai o meu interesse e a correspondente credibilidade que tem que sustentar qualquer história que me queira agarrar.

Sendo assim, após ter-me deliciado e lambuzado com A sombra do vento, segui direitinha para O prisioneiro do céu, sem qualquer tipo de dúvida ou remorso. Daniel está casado com Bea e os dois são pais de um bebé chamado Julián. Fermín está prestes a casar, mas anda num estado de irritabilidade e melancolia que não se adequa com a iminente concretização do sonho de juntar os trapinhos com Bernarda. Este estado, porém ficará ainda pior quando se inteirar de uma visita de um homem de aspeto pouco tranquilizador à livraria Sempere e principalmente do recado que o mesmo deixou para si num exemplar da obra O conde Monte Cristo.

Este recado será o motor desencadeador para uma narrativa que nos abrirá portas ao passado de Fermín Romero de Torres e nos fará conhecer ainda melhor este homenzinho enxuto de carnes, dono de um enorme nariz e de um ainda maior coração. Regressaremos aos anos tormentosos do imediato pós-guerra civil, franquearemos as portas da tortuosa cadeia do castelo de Montjuic, saberemos quem era afinal aquele homem estranho e assustador que foi à livraria Sempere apenas para deixar um enigmático recado a Fermín, perceberemos finalmente por que razão este sempre esteve relacionado com a família Sempere e conheceremos um pouco melhor quem foi na verdade Isabel Sempere, mãe de Daniel. Meteremos a mão a tudo isto numa leitura vertiginosa, feita de capítulos curtinhos e de uma história habilmente montada pelo autor que não queremos largar mesmo quando viramos a última página. Comigo, pelo menos, foi assim. Fiquei de tal forma sedenta de respostas que, mal encerrei a leitura deste volume, voei para a estante onde estava à minha espera o calhamaço que contém o volume quatro e me embrenhei de imediato nas suas 845 páginas!

Sinto-me muito, mas muito tentada em deixar nesta opinião algumas migalhinhas do que estou a desvendar no último volume. Mas não o vou fazer, porque acho que, se o fizesse, estaria a ser “injusta” e a menosprezar de alguma forma o valor, o interesse e o prazer que retirei da leitura de O prisioneiro do céu. Admito que não me arrebatou tanto como o fez o seu antecessor (já previa isso, sobretudo porque é quase impossível que dentro de uma saga não haja mais e menos prediletos). Contudo, agradeço e muito ao autor ter dado neste volume a oportunidade de Fermín brilhar. Brilhar com as suas fraquezas, as suas imperfeições e acima de tudo com o seu coração do tamanho do mundo, a sua retidão, a sua verborreia inigualável, que me arranca gargalhadas esteja eu onde estiver, o seu apetite e o poder milagroso que atribui a um Sugus, principalmente se for de limão (os meus preferidos 😊).

Fermín conquistou-me. Aliás, estou um bocadinho apaixonada por ele e já sinto saudades, mesmo ainda não tendo terminado de ler o volume quatro. Por ele, recomendo que leiam O prisioneiro do céu. É certo que não é tão absorvente, tão deliciosamente avassalador como A sombra do vento, mas se estiverem tão apaixonados como eu por Fermín vão querer conhecê-lo melhor e só o podem fazer lendo O prisioneiro do céu.

Fica a recomendação. Eu, entretanto, vou devorando as páginas de O labirinto dos espíritos e vou saboreando a cada momento a vontade gulosa que espicaça as minhas glândulas salivares quando recordo o sabor de um Sugus de limão. Tenho que cuscar em supermercados e quiosques para ver se ainda se vendem!

NOTA – 09/10

Sinopse

Barcelona, 1957. Daniel Sempere e o amigo Fermín, os heróis de A Sombra do Vento, regressam à aventura, para enfrentar o maior desafio das suas vidas. Quando tudo lhes começava a sorrir, uma inquietante personagem visita a livraria de Sempere e ameaça revelar um terrível segredo, enterrado há duas décadas na obscura memória da cidade. Ao conhecer a verdade, Daniel vai concluir que o seu destino o arrasta inexoravelmente a confrontar-se com a maior das sombras: a que está a crescer dentro de si.

Transbordante de intriga e de emoção, O Prisioneiro do Céu é um romance magistral, que o vai emocionar como da primeira vez, onde os fios de A Sombra do Vento e de O Jogo do Anjo convergem através do feitiço da literatura e nos conduzem ao enigma que se esconde no coração de o Cemitério dos Livros Esquecidos.

in O sabor dos meus livros