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Gouveia: a minha primeira sapiência

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa leccionou a sua última aula, a aula de sapiência, enquanto académico. Mas continuá a dar-nos muitas lições que, gostemos ou não – e eu não sou dos indefectíveis, – vai continuar a dar muita pedagogia. Logo desta aula tenho que partilhar com denodo a minha agradabilidade.

O Professor, e hoje escrevo-o com maiúscula e por extenso, porque evoco o professor, mas que coincidentemente é Presidente da República.

O que quero dizer é que legalmente deixa de ser professor, mas continua a ser pedagogo. E sobre isto teria bastante que dizer. Muito que dizer, mas o meu contributo, mesmo que tivesse alguma qualidade, não deixaria de ser mais uma esconsa ideia das que têm sido ditas à beça. E eu feliz com isso. Juro.

É que assim posso introduzir-me numa matéria que há muito tempo aguardava oportunidade: o meu que foi professor Gouveia – Luís António Gouveia, de sua graça.

Se o Professor Marcelo leccionou a sua última aula, eu com o professor Gouveia iniciei – no preparatório – por sinal estou neste momento à frente do edifício, na Rua Rebelo de Carvalho, onde tive parte das aulas que me facultou – iniciei uma boa sapiência generalizada mas especificamente de Português, e mais tarde de História. Quantas recordações hoje e a qualquer altura tenho daquele pedagogo que – a título da narrativa – foi padre (casado) e tinha um filho com quem tomava banho que dizia: “Oh papá! Nós somos homens”!

Assevero que não sou apenas eu que guardo muita, muita… e boa memória daquele professor não apenas pela boa memória, mas sobretudo pelo ensino que a todo o momento ponho – pomos – nós, alunos – em prática no quotidiano sem lembrar de onde foi colhida essa sapiência.

O professor Gouveia, já se vê, teve muita e boa influência em mim, mas acredito que teve a mais elevada influência na leitura e na escrita. (Foi com ele que me tomei de amores por Miguel Torga de quem viria a viver especificidades). Apontava-me como exemplo. Sempre sentado à manteigueiro, na fila da frente, com todo o material que pudesse precisar religiosamente arrumado, e as esferográficas que eventualmente poderia precisar – porque nas suas aulas ele queria que vincássemos alguma matéria e recomendava-nos uma esferográfica verde – não sei se isso influenciou a minha eterna preferência pela cor verde…  ele apontava várias vezes o Mendes de Magalhães como exemplo: “Freitas Azevedo! Estás em falta. Olha o Mendes de Magalhães”! E que raio, que sendo eu do mais desastrado nas restantes disciplinas, ali – honestamente – colhia do exemplo.

Era o terror noutras disciplinas, mas nas suas eu atinha-me. Pois: tive a sorte de o ter como professor de Português no primeiro ano do (então ciclo) preparatório e… pasme-se! – no segundo ano. E… e no segundo ano também professor de História!

Levei um banho de Luís António Gouveia. Aquele que nos seus imensos conselhos nos exemplificava que “uma mulher deve ser cintada – a minha mulher cinta-se”. “Não deveríamos dormir com roupa interior” e éramos drogados de café, quando num dia de anos de um colega, fomos ao café, na hora de almoço, e nos viu, dando-lhe a oportunidade de na aula nos estigmatizar: “São drogados de café”.

O professor Gouveia era assim um homem com repas que pendiam pela nuca. Meio esgrouviado, mas o mais atento e vertical possível.

Aos rapazes instituiu no início do ano que passávamos a ser tratados pelos últimos nomes. As raparigas designar-se-iam pelo primeiro e o derradeiro.

Também ditou que a nossa assinatura devia conter o nome todo, e tal como no Bilhete de Identidade. Explicação para eu ser Mendes de, digo de Magalhães.

A praxe levar-me-ia a mensurar muitas, muitas curiosidades e também particularidades, mas o texto vai longo. Textos longos foi coisa que o professor Gouveia nos inculcou. Mas agora escuso a esse exemplo.

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)